A Salva-vidas

Às vezes eu fico sem saber se cabe escrever umas discussões filosóficas e existenciais aqui, mas aí depois eu penso que eu posso escrever o que eu quiser, já que esse espaço é meu, mesmo correndo o risco de ninguém ler. Mas vou correr o risco.

Na verdade, esse post é um pouco sobre o filme A Salva-vidas (The Lifeguard, no original) que eu vi há pouco tempo. Eu demorei a ver o filme porque, apesar de ser com a Kirsten Bell, atriz que eu adoro só porque fez Veronica Mars, o cartaz é a própria de maiô vermelho típico de salva-vidas, o que me remeteu a algo trash como um Baywatch da vida. Mas quando resolvi finalmente ver o filme, vi que não tem nada a ver com Baywatch. E mais uma vez a vida me joga na cara que é errado julgar as coisas pela capa. Ok vida, acho que dessa vez aprendi a lição. Ou não.

O tal poster do filme. Não tem cara de Baywatch do bem?

O tal poster do filme. Não tem cara de Baywatch do bem?

O filme é sobre uma mulher (Kirsten Bell) que percebe que sua vida está uma merda porcaria na “cidade grande” (NY), e volta para sua cidade natal. Uma grande fuga de sua realidade, essa é a verdade. No momento em que revê o cenário familiar do lugar em que cresceu, seu rosto já muda de expressão e ela se sente melhor. Porque todos sabemos o quanto é bom estar em um lugar onde você conhece cada pedaço e se sente protegida por causa disso, ainda mais quando você volta para casa dos seus pais. Quer mais proteção e familiaridade do que os pais? Aí ela arranja um emprego como salva-vidas de um condomínio, emprego esse que ela já tinha trabalhado quando bem mais nova (mais uma vez a tal segurança), e acha que tudo vai ficar bem. E não vou contar mais pra não dar spoilers. Mas esse filme me fez pensar muito sobre a minha vida. Primeiro porque a personagem tem 29 anos (e faz questão de deixar bem claro que são 29 anos, e não 30), como eu. E segundo porque ela está totalmente perdida e sem saber o que fazer da vida, como eu.

Sim, acho que muitos sabem que sou escritora e que até semana passada eu trabalhava em uma editora, ou seja, eu posso continuar trabalhando como assistente editorial em outra editora, e é exatamente para esses lugares que meus currículos estão sendo destinados. Mas quem disse que é só isso que quero fazer? Quem disse que não tenho outros interesses e quem disse que não quero trabalhar com coisas relacionados a esses outros interesses? E esse é um grande problema, os diversos interesses. Se eu gostasse somente de uma coisa, como minha mãe, que sempre soube que queria ser médica…

Meses atrás, tipo, muitos meses atrás mesmoOutro dia, estava conversando com uma amiga e chegamos a conclusão (bem, ela chegou, eu só concordei) que as pessoas que são mais capazes, as mais inteligentes e que parecem ter muitas facilidades e habilidades são as que mais têm dificuldade no mundo. É o que ocorre com a personagem do filme, que era a melhor aluna da classe quando adolescente. E é um pouco o que acontece comigo. Não estou dizendo que sou wow fantástica e super inteligente, o meu caso é mais o de ter várias habilidades. E isso não é legal. Não é legal não ter um foco. Quando você está fazendo uma coisa, você pensa que poderia estar fazendo outra, que talvez aquela terceira habilidade seria mais legal de fazer. E você fica nessa montanha-russa eterna. E isso complica ainda mais quando você é uma perfeccionista que não admite errar como eu. Porque você tem tantos interesses e quer fazer tudo ao mesmo tempo, e acaba não fazendo nada direito e se achando um fracasso. E não sabe o que fazer da sua vida. Porque é duro demais desistir de um interesse para focar totalmente em outro. E é mais duro ainda quando você vê pessoas se dando super bem em algum interesse seu, que sempre foi seu,  enquanto você está paralisada e perdendo sua identidade como pessoa que tem aquele interesse.

Esse filme realmente me tocou muito. Me fez refletir demais. Me fez pensar se talvez eu não tenha que parar de querer tudo e focar em uma coisa só, se não tenho que parar de ter medo de falhar e meter a cabeça de vez, se eu não tenho que tentar perceber o que mais amo de tudo que gosto e me focar nisso, e tentar meu melhor nisso e só nisso. Ou se não tenho que tentar fazer tudo, já que amo tudo, e ficar sem dormir tentando fazer tudo, já que isso que vai me fazer feliz. Mas dando 100% de mim, sem medo de fazer merda (oops, falei palavrão. sorry). Enfim, nada a ver com Baywatch mesmo, né?

É um filme que reflete muito a minha geração, a geração que está sendo adolescente por mais tempo e com muito medo de crescer. E que, ao mesmo tempo, se culpa horrores por ainda estar estagnado, por não ter seu milhão e não estar totalmente estável, coisa que nossos pais estavam quando tinham nossa idade. Mas temos que lembrar que eles são de outra geração, uma geração que não tinha opções. Nós temos, e é muito comum demorarmos mais tempo pra sair de casa, pra conseguir um emprego estável, pra parar de estudar (porque estamos cada vez nos especializando mais). Só não podemos nos perder nessa “facilidade” e segurança e ficarmos pra sempre na barra da saia de nossas mães e com medo de enfrentar um mundo que, let’s face it, não adianta a gente se esconder porque vamos ter que enfrentar algum dia. Só não precisamos perder nossa criatividade e criança interior, tudo dá para ser equilibrado.

E sério, vejam esse filme! É muito bom!

The world is a roller coaster and I am not strapped in. Maybe I should hold with care,but my hands are busy in the air. (Wish you were here, Incubus)

The world is a roller coaster and I am not strapped in. Maybe I should hold with care,but my hands are busy in the air. (Wish you were here, Incubus)

2 comentários sobre “A Salva-vidas

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