Sobre memórias, amores e seu lugar no mundo

Alguma coisa acontece comigo quando entro no Estação Rio, antigo Espaço de Cinema, em Botafogo. Amo todos os cinemas do grupo Estação, por serem os melhores cinemas da cidade, e por passarem os melhores filmes sempre. Mas o Estação Rio… Ele é especial.

Dia perfeito: café, livro e o Estação Rio.

Dia perfeito: café, livro e o Estação Rio.

É só passar pelas portas de vidro que me sinto totalmente em casa. E eu digo totalmente mesmo! Percebi que é meu lugar favorito em todo o Rio de Janeiro. Me sinto muito bem lá, e me abate uma sensação tão boa que não dá vontade de sair nunca mais. Uma sensação de pertencimento, algo que, pra mim, é muito difícil de sentir.

Sempre me senti muito deslocada na maioria dos lugares em que eu ia. Sempre me senti muito diferente de todo mundo. Talvez por ter estudado onde estudei. Não sei, mas tenho uma teoria de que pessoas que estudaram em colégio como o meu (Cap. da UFRJ) ou o Pedro II tem uma cabeça um pouco diferente. Tanto no Cap. quanto no Pedro II, há uma diversidade muito grande. E você se acostuma com isso. E esses colégios promovem muito a discussão de assuntos diversos, principalmente cultura e política. E você cresce assim, curioso com o mundo, querendo saber um pouco de tudo, querendo falar de cultura, querendo aprender um bando de coisa nova, e é uma tendência (claro que não são todos os alunos, mas muitos) em colégios assim, pelo menos no Cap. (ou pelo menos as pessoas da minha turma), os alunos puxarem mais para o lado de humanas, e se interessarem por cultura, história, política, línguas, e coisas do tipo. E eu sou apaixonada por tudo isso (menos política, admito), e as pessoas com quem convivi da 1a série do 1o grau (quando eu tinha apenas 7 anos) até o terceiro ano também. A primeira vez que entrei em um cinema do grupo Estação foi com minha turma do colégio, e fazia parte da minha aula de história (fomos ver Tiros em Colombine, do Michael Moore, pra depois falar sobre isso em sala). Tudo era motivo para conversarmos e discutirmos, em aula. É um colégio que mexe com seu raciocínio, com seu poder de questionar e pensar, e também de querer saber sempre mais, e sempre ir em busca do novo, do diferente. Então, no Cap, eu me sentia em casa. PS. Estudantes do Cap. eram assíduos frequentadores dos cinemas do grupo Estação.

O Estação.

O Estação.

Quando fui pra faculdade, já não me sentia mais tão acolhida quanto no Cap. As pessoas eram super mente aberta, como as pessoas do Cap.? Sim. E isso era maravilhoso. Também encontrei pessoas abertas a discussões, que amavam ser estimuladas mentalmente. Mas tinham certos aspectos que eu não gostava, e eu também não era muito como eles, pessoas que gostavam de sair à noite, beber e usar algumas drogas. O que fazia eu não sair tanto com eles. Mas eu fiz minhas amizades na faculdade, pessoas como eu e que amavam cultura como eu, mas não eram amantes da noite. Mas, mesmo não me dando tão bem com a maioria da galera da faculdade, eu adorava as conversas filosóficas, as pessoas totalmente diferentes umas das outras, pessoas que não seguiam padrões e viviam suas vidas sem ligar para o julgamento da sociedade. Pessoas frequentadoras do grupo Estação (hehe).

Mas quando saí da faculdade e comecei a frequentar mais  “mundo real” e sair desse meu grupinho de pessoas “pra frentex”, como diriam meus pais, foi um choque. Percebi que o mundo não era tão culturalmente rico e curioso e nem mente aberta quanto eu estava acostumada. E comecei a me sentir totalmente um peixe fora d’água (o que fez eu desenvolver um sistema de defesa por ser olhada com estranheza por várias pessoas, mas isso é outro assunto), com meus gostos diferentes, roupas diferentes, jeito de falar diferente, prioridades diferentes. Eu não era o que as pessoas esperavam de mim, ainda mais porque eu tenho uma aparência delicada, de menina boazinha e meiga.

Comecei a perceber que a maioria das pessoas achava filme francês chato (quando tinha visto algum) e que não sabia quem era Alejandro Iñárritu (meu diretor preferido), e muito menos quem era Guillermo Arriaga (roteiristas, sempre esquecidos…). E me consideravam pedante e me metida quando eu falava dessas coisas que eu gostava, achando que eu queria mostrar que eu sabia mais que todo mundo quando, na verdade, eram as coisas sobre as quais eu sempre conversei até então. Então, fui me fechando e tentando me adequar a esse novo mundo. O que não me faz assim muito bem porque, todos sabem, é péssimo você ter que reprimir seu verdadeiro “eu”.

E por isso é tão bom estar no Estação Rio, o lugar que passei tantas tardes da minha vida, escrevendo, tomando um café, e claro, abrindo ainda mais minha mente com seus filmes. O lugar onde sinto que posso ser eu mesma. Um lugar cheio de diversidade. O lugar onde há tantas pessoas parecidas comigo e que entendem meu fascínio por cultura e filmes “alternativos”.

Um dos filmes "alternativos" que em breve estará em cartaz no Estação - e que quero muito ver!

Um dos filmes “alternativos” que em breve estará em cartaz no Estação – e que quero muito ver!

Claro que hoje conheço outras pessoas com o mesmo fervor por conhecimento, cultura e tudo que existe de diferente que eu. Claro que tenho pessoas com quem trocar informações e conversar sobre filmes do mundo todo e que eu se falar sobre o Iñarritu saberão quem é, eu casei com uma pessoa assim também (porque, se ele não fosse assim, eu não teria casado com ele, claro). Mas eu ainda me sinto flutuar toda vez que entro no Estação Rio, esse lugar tão cheio de memórias boas. E espero que essa sensação não passe nunca.

PS. Escrevi esse texto quando estava no Estação Rio e, logo após terminar de escrever, entraram umas crianças, infectando meu lugar favorito com gritos e correrias e o meu coração de raiva e vontade de estrangulá-los.

E vocês? Qual o lugar favorito na cidade de vocês? Por que? Conte pra mim nos comentários, adoro saber essas curiosidades! E não esqueça de seguir o blog!

Beijos!

4 comentários sobre “Sobre memórias, amores e seu lugar no mundo

    • Gosto muito do Espaço Itaú também, mas eles também passam filmes comerciais… E quando comecei a frequentar o Estação, o Espaço Itaú não existia, por isso meu amor pelo Botafogo.
      Agora… crianças são pragas do inferno! hahahahaha

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