Filmes: Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância)

Antes de qualquer coisa, Birdman não é um filme de super-herói. Aviso isso porque eu achava que seria mais um filme de super herói, como todos esses que vimos por aí e eu gosto, não me entendam mal. Mas eu sei que muita gente pode estar esperando um filme grandioso e cheio de ação e aventura, como Os Vingadores, Superman e coisas do tipo, e não é. Estou avisando para ninguém assistir o filme desavisado e acabar tendo uma decepção porque ele não é nem um pouco cheio de ação e explosões. Nem um pouco mesmo!

Pôster do filme.

Pôster do filme.

Birdman conta a história de um ator que estourou interpretando um super-herói nos cinemas: o Birdman do título do filme. Porém, ele tenta ao máximo se livrar dessa imagem, como vários atores que conhecemos que ficam marcados por um personagem e não conseguem nunca mais ser lembrados por outra coisa – e nem conseguem fazer outro tipo de papel porque nem mesmo as pessoas do mercado do cinema conseguem pensar neles de forma diferente. No filme, o ator escreve (e dirige) uma peça de teatro para que as pessoas – e ele mesmo – possam desvencilhá-lo do papel que interpretou há tantos anos atrás. E o filme transcorre durante essa empreitada: mostra os dias antes da peça estrear, os ensaios fechados e abertos para o público, e a estreia em si.

O tema do filme é muito interessante e muito atual. Como a fama é algo rarefeito e tem muito menos a ver com o a qualidade de seu trabalho, mas sim com o que você representa. E isso inclui os críticos. Se existe uma coisa que sempre me incomodou foi a fala dos “supostos cultos”, ou “pseudo cults”. E eu não chamo de pseudo cult só aquela galera que fala que gosta de uma coisa só porque é considerado bom. Pseudo cult, pra mim, é todo aquele que diz que só um tipo de coisa é bom, geralmente o que é considerado bom pela elite intelectual. Eu não vou ser hipócrita e dizer que tem alguns produtos culturais que não me animam consumir por saber de antemão que não serão muito de meu agrado, como comédias muito bobas e coisas do tipo. Mas eu não deixo de ver tudo, e quando vejo, não digo que não gostei mesmo tendo gostado só porque aquele produto é considerado de baixa qualidade. Mas tem gente que é assim, e os críticos são assim (e são insuportáveis). E isso fica muito claro no filme. E não adianta: uma vez que você fez um produto considerado de baixa qualidade, não há nada de boa qualidade que você faça que vai tirar isso da cabeça pequena dessas pessoas (não vou falar mais senão darei spoiler). E isso fica bem claro no filme, o quanto, em ambos os lados (dos cultos e dos que não ligam pra essas coisas), o estigma e o preconceito impera.

Michael Keaton e Edward Norton em frente ao teatro onde será encenada a peça do ex-Birdman.

Michael Keaton e Edward Norton em frente ao teatro onde será encenada a peça do ex-Birdman.

A crítica ao próprio sistema e mercado cinematográfico é muito forte e aparente no filme, o que é uma das coisas mais legais. É muito interessante quando algo critica a si mesmo. Outro aspecto interessantíssimo do filme são os planos do filme. Eles são, em sua maioria, planos sequência. Planos sequência, pra quem não sabe, são aqueles planos sem corte, que a gravação não é interrompida e a câmera segue os atores, mesmo quando há mudança de cenário. A cena que colocarei abaixo é um plano sequência. Eles não saem do cenário em que estão, mas dá pra se perceber a falta de corte e que é uma cena contínua. É algo muito difícil de se fazer, tanto para a parte técnica quanto para os atores. Imagina o cameraman tendo que seguir o ator, às vezes, os atores, de cenário a cenário, e filmar do ângulo que foi combinado? E os atores tendo que acertar cada marca, cada fala, cada movimento? Porque um plano sequência costuma ser longo, portanto há mais falas, mais movimentos, mais marcas. E se, por acaso, alguém errar, terá que ser feito do começo, porque se repetir do meio deixa de ser plano sequência. Perceberam a complexidade?

Então eu fiquei fascinada com a parte técnica do filme. Os planos sequência, os takes próximos, que muitas vezes distorciam os atores, a falta de pudor e vaidade dos atores nesse filme, a edição perfeita, a direção mais perfeita ainda porque há de se dirigir muito bem para tudo isso dar certo. Tudo bem que eu sou uma fanática por Iñárritu (o diretor do filme), então talvez minha opinião não seja assim tão imparcial. hehe Ele, inclusive, está concorrendo ao Oscar de Melhor Direção por Birdman.

Atores sem vaidade no filme: Michael Keaton e Edward Norton de cueca e duas fotos da Emma porque mesmo feia ela é linda!

Atores sem vaidade no filme: Michael Keaton e Edward Norton de cueca e duas fotos da Emma porque mesmo feia ela é linda!

As outras nomeações do filme são de Melhor Ator (Michael Keaton, muito bom), Melhor Ator Coadjuvante (Edward Norton, fenomenal, como sempre), Melhor Atriz Coadjuvante (Emma Stone, minha queridinha mór), Melhor Roteiro Original (Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo), Melhor Fotografia, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som, e o prêmio mais importante da noite, Melhor Filme. No Globo de Ouro, Birdman levou os prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Ator em Comédia ou Musical. Agora, como não há separação entre comédia e drama na categoria de melhor ator, acho difícil Michael Keaton ganhar de Eddie Redmayne (vejam minha crítica sobre A teoria de tudo, filme que Eddie protagoniza, clicando aqui). Direção acho difícil alguém ganhar de Linklater, diretor de Boyhood (minha crítica sobre o filme aqui). Roteiro eu gostaria muito que Wes Anderson ganhasse com seu incrível O Grande Hote Budapeste, assim como Melhor Filme (mais uma vez, crítica sobre O Grande Hotel Budapeste aqui), mas acho difícil ele ganhar. Dos prêmio técnicos, eu nunca sei o que dizer, mas eu daria todos os de som pra Whiplash!  E fotografia vai fácil pra Grande Hotel Budapeste. Acho muito difícil a Emma ganhar melhor atriz coadjuvante e o Edward Norton só não ganha Melhor Ator Coadjuvante por causa do J.K. Simmons de Whiplash (adivinha! Crítica aqui). Ou seja, tá difícil pro Birdman (na minha opinião, claro).

Apaixonada por essas luzinhas de pimenta!

Apaixonada por essas luzinhas de pimenta!

Maaaaaaaaaaaaas, depois de tudo isso que falei, depois de ter amado a parte técnica do filme, de amar Iñárritu and all, preciso falar que não achei o filme fantástico. Quer dizer, sabe quando você consegue reconhecer a magistralidade de algo mesmo sem ter gostado muito? Pois é, foi o que aconteceu. Eu achei o filme cansativo, mas achei que ele deveria existir, entendem? Porque é um tema muito bom de ser discutido, foi passado de uma forma espetacular tecnicamente, eu só achei meio cansativo. Mas não deixem de ver por causa dessa minha opinião. Vejam e tirem suas próprias conclusões.

Beijos!

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4 comentários sobre “Filmes: Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância)

  1. Garota Carioca disse:

    Eeeeê você criou a assinatura do post, que fofo! 🙂

    Eu assisti o Birdman (ou melhor, aproximadamente a metade dele, porque dormi no restante kkk) na terça-feira do Carnaval e concordo com basicamente tudo que você disse em relação à parte técnica: sim, o filme é tecnicamente brilhante, as cenas contínuas sem cortes são geniais, os atores se preocupando muito mais com a atuação do que com a vaidade dão show e tudo mais, mas acho que ao mesmo tempo foi essa continuidade toda e o ritmo do filme que me fez achá-lo cansativo num determinado momento.
    Acho que foi tudo utilizado de forma muito intensa, a ponto de se tornar cansativo num determinado momento!
    Concordo quando diz que é um filme que deveria existir, e acho até que tem boas chances de ganhar o Oscar, por romper tantas barreiras técnicas e conceituais, mas não pretendo revisitá-lo para assistir o final por conta disso, simplesmente porque cansei mesmo. Cansei e dormi, perdi o final e depois quando me contaram fiquei satisfeita e não senti que precisaria assistir novamente por conta disso. O que eu precisava ver do Birdman eu vi, e apesar de achar brilhante, achei também chato e cansativo – “pode isso, Arnaldo?” kkk

    Beijo!

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