Sobre a vida, o universo e tudo mais

Acabei de ver um filme muito ruim chamado Casi Treinta (quase trinta, em espanhol). Pois se ele é muito ruim, por que você está falando dele aqui?, você pode estar pensando. Porque apesar de o roteiro ser ruim, os diálogos serem péssimos e os atores não saberem atuar, ele passa uma mensagem no final que, apesar de cliché, me atingiu certeiro por eu estar passando por um momento bem parecido, e eu sou daquelas que acha que tudo acontece por um motivo. Ou seja, eu não escolhi assistir esse filme, entre centenas de filmes que existem no Netflix, à toa.

casi 30

O filme (que está representado pelo cartaz aí de cima, só pra vocês saberem qual é e nunca ver, ou então ver só pra ter certeza por conta própria que é ruim) fala sobre um cara que tem uma vida de merda que ele não gosta muito por razões pessoais, faz uma viagem para sua cidade natal (seu amigo vai casar) e se dá conta de que está fazendo tudo errado porque não está seguindo seu sonho, e só seguindo seu sonho ele será feliz (sim, eu acabei de estragar o final pra vocês, mas falando sério, não valia a pena assistir anyway). E foi isso que me pegou, o detalhe que nossa geração (pelo menos a minha, dos “casi treinta” – ou, no meu caso, treinta) vive ouvindo desde que se entende por gente: você tem que seguir seus sonhos. Mas será que dá?

No caso do personagem principal (o filme é tão bom que nem me lembro do nome dele. ah! lembrei! Emilio), ele pôde viver seu sonho no final das contas porque tinha trabalhado muitos anos num emprego que ele odiava, mas que ele ganhava muito muito muito muito bem para fazer. Então é sim possível passar um ano sabático só escrevendo (no caso, o sonho dele era ser escritor), mesmo num país não muito bem financeiramente como o México, onde o filme se passa. Mas e se você não tem esse luxo? E se você não vem de família abastada, nem conseguiu juntar seu primeiro milhão, e provavelmente nunca conseguirá? Será que dá pra seguir seu sonho?

Eu sempre fui a primeira a repetir sem parar a premissa maior mais difundida por filmes, livros, séries, novelas e todas essas coisas que servem para nos entreter. Eu tinha um sonho – na verdade, eu tinha vários -, e eu tinha certeza de que iria realizá-los. Porque eu lutaria por eles e, obviamente, se a gente luta por algo, a gente consegue. Só que eu vivia no mundo da fantasia, e quando percebi que no mundo real não é bem assim, eu caí do cavalo bonito. E foi uma bela queda.

Um dos problemas para mim foi perceber qual era meu verdadeiro sonho um pouco tarde demais. Eu já estava fazendo faculdade de produção cultural (na verdade, estava mais perto do final do que do começo) quando percebi que meu sonho era trabalhar com cinema. Escrever para cinema. Mas por vários motivos, um deles sendo falta de informação, outro sendo falta de confiança em mim mesma, decidi terminar a faculdade que eu estava fazendo e só fazer cursos de roteiro. E eu fiz, vários, inúmeros – que não me levaram a lugar algum. Sabe, é muito difícil se inserir no mercado audiovisual, ainda mais quando se é apenas uma roteirista. Quando você quer dirigir ou produzir é um pouco mais fácil – veja bem, eu disse um pouco, porque continua sendo difícil. Fica ainda mais difícil quando você não frequentou uma faculdade de cinema e não fez contatos. Cinema é total movido por QI (quem indica), pelo menos é o que eu vejo (se você é de cinema e teve uma experiência diferente, me desculpe pela abobrinha que eu disse, e me conte sua experiência!) e se eu não conheço ninguém (nesses cursos que eu fazia eu quase não falava com as pessoas devido minha timidez), como entrar? Só que só percebi isso muito mais tarde, quando eu já estava formada em produção cultural e praticamente casada, ou seja, começando a montar uma vida a dois, ou seja, não dá mais pra ser egoísta e pensar só nos meus sonhos. Quando a gente vai morar sozinho, a gente precisa ganhar dinheiro. E todo mundo sabe que quando você está começando em algo o dinheiro é pouquíssimo, isso quando existe. Na área de audiovisual, é muito comum se trabalhar, no início, por nada, só pra ganhar experiência e começar a conhecer pessoas. E isso não era algo que eu podia fazer porque tinha uma casa para bancar. Ou seja, nesse caso, não dá pra seguir o sonho não, galera.

A realidade é muito diferente da expectativa, e às vezes só só percebe isso quando está lá, cara a cara com a realidade. Claro que muito vai das escolhas que você faz. Eu podia escolher dar adeus ao Raphael, ou segurar um pouco a ansiedade e casar com ele mais tarde. Mas, pra mim, ter a minha casa e morar com ele era mais importante – e continua sendo. Na verdade, foi muito bom eu ter saído de casa. Apesar de ficar longe dos meus gatos, melhorou muito a relação com minha mãe, aprendi a ser mais responsável (não totalmente ainda, mas tô caminhando), aprendi a enxergar mais a realidade das outras pessoas, já que só depois de ter que bancar uma casa sozinha (com Raphael) e ver o quanto isso é difícil me fez perceber que nem todo mundo tem a vida fácil que eu tinha antes de sair da casa dos meus pais. Amadureci muito casando, e tô aprendendo muito com essa experiência, tanto com Raphael quanto comigo mesma. Aliás, tô aprendendo e descobrindo mais coisas sobre mim que nunca seria possível se eu ainda fosse bancada por mãe e pai. Mas isso também significa frear os sonhos, colocar a cara inteira na realidade e perceber que nem tudo é do jeito que a gente quer, às vezes temos que fazer o que é preciso fazer, e não o que nossa cabecinha sonhadora sempre pensou que fosse seu futuro.

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Grafite do artista plástico (e brilhante) Banksy.

Mas como um dos personagens diz no final do filme (é, eu estraguei o filme totalmente pra vocês mesmo), nunca é tarde para tentar, então quem sabe, quando eu tiver mais estabilizada financeiramente, quando tiver pelo menos um pouquinho para dar uma chance ao sonho, eu não possa voltar para ele? Mesmo tendo bem mais do que casi treinta!

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2 comentários sobre “Sobre a vida, o universo e tudo mais

  1. Acho que o caminho é esse mesmo, tentar conciliar os sonhos com a realidade, não dá pra ser totalmente sonhador, mas também não devemos desistir totalmente dos nossos sonhos. Se você gosta de escrever e tem vontade de fazer roteiros, deve continuar investindo um pedacinho do seu tempo, nem que seja inicialmente por lazer ou realização pessoal, e paralelamente buscar um trabalho que traga uma estabilidade financeira para futuramente, quem sabe, poder bancar o seu sonho…
    Eu to na fase de buscar essa estabilidade primeiro, mas principalmente porque no meu caso eu acho que ainda nem sei o que eu realmente quero fazer para o resto da minha vida… Então, por ora, vou caminhando, com passos mais curtos, fazendo planos de curto/médio prazo apenas… e vendo aonde vou chegando! *momento um pouco egocêntrico de desabafo, sorry!*

    Beijo! :***

    Clá | blog Uma Garota Carioca

    • Tem que pedir desculpa não, aqui é pra gente trocar ideia, conversar mesmo. Eu também não sei bem o que quero fazer, apesar de achar que quero trabalhar com cinema. Mas é que tenho tantos interesses que fico confusa, talvez seja seu caso também. Mas acho que você tá fazendo o que acha que deve fazer, e isso que importa, fazer o que sente que é melhor pra você. Aos poucos vamos nos encontrando…
      Beijos!

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