O quarto de Jack

O quarto de Jack (Room)

Indicações: Melhor filme, Melhor atriz (Brie Larson), Melhor direção (Lenny Abrahamson), Melhor roteiro adaptado (Emma Donoghue).

Sinopse: O longa conta a história de Jack, um menino de cinco anos que é criado por sua mãe, Ma. Como toda boa mãe, Ma se dedica a manter Jack feliz e seguro e a criar uma relação de confiança com ele através de brincadeiras e histórias antes de dormir. Contudo, a vida dos dois não é nada normal: eles estão presos em um espaço de 10m². (retirado do site Filmow)

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Pôster do filme.

Room é um filme intenso. Não é pesado, é intenso. Tenso. Dá nervoso – não o filme inteiro, mas algumas partes cruciais. Alguns críticos estão dizendo que é um filme claustrofóbico. Discordo. Apesar de mãe e filho estarem em um quarto (o tal “room”) minúsculo, não dá sensação de claustrofobia. Mas isso tem um motivo. E o motivo se chama Jack. Jack nasceu no Quarto. Jack não conhece nada além do Quarto. Portanto, para Jack, Quarto não é claustrofóbico, não é pequeno, e como o filme é contado a partir da visão de Jack, não, não nos sentimos apertados num cubículo. Para nós, o quarto é o mundo, assim como para Jack. E Quarto acaba sendo também um personagem, por isso o nome do filme é Room em inglês, assim, sem artigo, porque ninguém chama ninguém de The Jack, The Joy, etc. Room, ou Quarto, é personagem, não é abstrato, e também não seria pra você se tudo que você conhecesse fosse ele e os objetos contidos nele – Cama, Armário, TV, Mesa.

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Room (desculpa, gente, simplesmente não consigo chamar o filme de O quarto de Jack, não combina, não tem a mesma força que seu título original) é o que é por causa de Jack, ou seja, Jacob Tremblay, que na época das gravações tinha somente sete anos de idade. Mas atuando tem a responsabilidade e a seriedade de um ator com anos de experiência nas costas. O garoto arrasa. Ele é bom demais. Mas tudo foi feito, nas gravações, para que ele pudesse dar o melhor de si. Porque o diretor (e todos da equipe) sabia que, apesar de ele ser ótimo ator e ser responsável como um adulto, ele ainda era uma criança. E, portanto, chegaria a limites. Por isso, o filme foi gravado cronologicamente, porque ele já não é um filme fácil, e pra uma criança gravar fora de ordem seria muito confuso (para Jacob, no caso). O contato entre Jacob e Brie Larson, sua mãe no filme, também foi outro aspecto pensado pelo diretor, que queria que houvesse uma intimidade e um afeto grande entre os dois e que Jacob se sentisse confortável com ela, o que era super importante, já que no filme a mãe é a única pessoa com quem Jack tem contato. Pra isso, Brie e Jacob se conheceram três semanas antes das gravações, para já irem criando laços. A escolha de Brie (que foi feita antes da escolha da criança) também foi essencial, pois o diretor sentiu que ela era uma pessoa calorosa, então deixaria qualquer criança confortável. Sem contar os percalços encontrados durante as gravações, que eram sempre ultrapassados pensando sempre, em primeiro lugar, no bem-estar de Jacob, como, por exemplo, em uma cena em que Jack teria que berrar com a mãe e Jacob estava envergonhado de fazer. O diretor pediu para que todos no set começassem a berrar para que Jacob percebesse que ele não estava sendo “ridículo” ao berrar também. E assim conseguiu que Jacob se sentisse confortável para fazer a cena. Por isso tudo, eu já daria o troféu de melhor direção para Lenny Abrahamson. E o fato de tratar de assunto tão pesado (o sequestro de uma adolescente que acaba tendo um filho de seu sequestrador/estuprador) de forma tão leve (porém intensa, como eu disse no começo). A própria autora do livro em que o filme é adaptado (e também roteirista do filme) disse que só aceitou fazer o filme porque percebeu que Lenny entendeu de verdade o livro e estava focando o que era verdadeiramente importante na história: o amor entre mãe e filho, e não focando no crime (ela havia recebido várias outras propostas pra transformar seu livro em filme antes da de Lenny e havia recusado todas). E é exatamente isso que o filme mostra, como o amor de uma mãe é imenso e transformador, mesmo em situação tão adversa. E é somente por causa do amor de Joy (ou Ma, como Jack a chama) que o menino age com a naturalidade que ele age naquele cubículo, porque Joy não quis passar para ele o pavor, o ódio e todos os sentimentos ruins que ela sente. É uma verdadeira história de amor.

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Jacob fofíssimo!

Brie também está estupendamente bem e merece a estatueta que irá ganhar – porque ela VAI ganhar o prêmio de melhor atriz, não tem como ir para outra pessoa. Lenny provavelmente não ganhará o prêmio de melhor direção por causa de Iñarritu e seu O regresso, mas, pra mim, ele é o verdadeiro vencedor. Assim como o pequeno Jacob, que nem sequer foi indicado, mas que merecia o Oscar, porque atuar na intensidade que ele atua em idade tão pouca não é pra qualquer um!

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Brie Larson em cena.

Trailer do filme procês!

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Um comentário sobre “O quarto de Jack

  1. Bom dia, acabei de ler seu texto sobre o filme “Quarto de Jack” e queria primeiro parabenizá-la pelas colocações mais do que pertinentes, e também por me identificar muito com seu ponto de vista sobre o filme. A escolha do título em português (concordo plenamente com você que deveria ser apenas Quarto, como o livro) talvez se deve ao fato de que o livro foi lançado em Portugal como o Quarto de Jack. Fico surpreso de o livro, tão reconhecido mundo afora, ser tão pouco conhecido no Brasil. Li o livro pela primeira vez em inglês, e encontrei umas pequenas coisas que me pareceram fazer mais sentido, depois, quando li a versão em português. Apenas umas rimas e misturas de palavras de Jack que se perdem um pouco na tradução para o português. Mas isso de forma alguma diminui o livro. Sou tradutor e revisor de livros e por conta da minha profissão digamos que já folheei muitas páginas ao longo da minha vida, mas confesso que nehum livro atingiu minha alma onde o Jack conseguiu chegar. Quanto ao filme, não sei que plavaras usar – e eu que as conheço tão bem, ou pelo menos deveria. Bem, o que eu posso dizer é que ao terminar de ver o filme eu me senti compelido a escrever pra minha mãe (É, uma carta mesmo, papel, caneta, selo, essas coisas! É que ela não se dá muito com e-mails e mora em outra cidade). Aqui está um trecho:

    “Não consegui dormir essa noite, ainda pensando no filme. Na verdade, quando eu li o livro já tinha ficado do mesmo jeito, meio sem saber o que dizer. Mas acho que as imagens do filme são mais fortes do que as palavras do livro, e mais do que pensar, te fazem reviver. Acho que me vi de novo com 5 anos, mesmo que as lembranças sejam igual um filme muito antigo que a gente não sabe direito de quando foi. Queria me lembrar mais, queria ver aquele garoto, mais nitidamente do que as lembranças meio apagadas que eu tenho. Nenhum garoto de 5 anos tem idéia do que as mães passam pra criá-los. E acho que mesmo depois, quando a gente cresce, parece não se dar conta – ou importância. Talvez eu tenha feito pouco, talvez pudesse ter feito mais. Na cabeça de uma criança, ser um bom filho parece menos que obrigação e mais um tipo de barganha, quando você quer alguma coisa em troca. Não é por maldade, talvez apenas a simplicidade ingênua que a gente tem quando é pequeno e que se perde com o tempo.
    As lembranças que eu tenho às vezes parecem meio embaralhadas, meio esfumaçadas pelo tempo… Lembro de uma escola enorme, e tão longe que pra chegar parecia uma aventura, até mesmo passar na porta de um cemitério era preciso. E nem imaginava que aquilo tudo custava dinheiro, e o quanto custava. Fico imaginando quantas roupas lavadas deve ter custado. Deve ser por isso que me lembro tanto de roupas no varal, de me esconder no meio delas pra brincar. Lembro de uma noite de febre muito forte, de uma mãe com um filho… um carro, um hospital. Lembro de uma mãe carregando um menino como pé enfaixado, descendo um morro esburacado, acho que era uma kombi de escola que esperava lá embaixo. Lembro de uma mãe com um filho e umas bolsas, subindo outro morro, esse de tão alto parecia uma montanha, e que pra se chegar lá tinha que atravessar uma passarela escura, que no fim dava voltas e mais voltas… Lembro de uns pés de mato que a mãe mandava o menino apanhar no quintal, e que era para pôr na comida, e dava um gosto bom.
    Não me lembro de muitos natais. Nem de presentes de natal embaixo de árvore de natal. Não que não tivesse presentes, mas aquilo que se via na tv, que as pessoas faziam no natal, parecia de algum filme, ou só da tv. Talvez porque comida fosse mais importante que árvore de natal, ou porque o papai noel devia ser gordo demais pra subir o tal morro esburacado. De qualquer forma, isso não mudava a sensação de que era uma época especial, de que alguma coisa acontecia, pelo menos nas casas das pessoas, que pareciam sempre tão cheias de gente, de barulho e de cheiros. Mas se isso tornou mais difícil acreditar num velho gordo de barba branca e roupa vermelha, ao menos me ensinou o quão fúteis podem ser os motivos que levam as pessoas a se empanturrarem numa noite de dezembro, e que o sentido do natal é qualquer coisa menos comida.
    Depois que se cresce, quando a gente não precisa mais ir à escola, e acha que já aprendeu tudo, que finalmente virou gente grande, o que resta são as lembranças. E acho que esse é o nosso maior engano – achar que já aprendeu tudo. Acho que aqueles que fixam os olhos só pra frente mais cedo ou mais tarde acabam se perdendo no caminho, por isso não esqueço do menino da história, que deixava pedaços de pão no meio do mato pra lembrar do caminho de volta – João e Maria, acho. Quando olho pra trás, e acabo descobrindo as migalhas que ficaram no caminho, eu sei que posso voltar. Ainda reconheço as feições daquele menino, posso ouvir os sons da noite que o faziam dormir todo encolhido debaixo do cobertor, posso sentir o cheiro que inundava aquela casa velha, com aromas de arroz, feijão apitando na panela de pressão, e alguma outra coisa gostosa e indistinta no prato, que tinha de me apressar a comer pra não perder a hora da escola. Lembrar de tudo isso, de todas essas migalhas de pão, me ensinam que eu não aprendi tudo que tinha pra aprender, que a última lição é não esquecer. Não esquecer os conselhos, a mudez, o sorriso, a zanga, as dores. Acho que é disso que somos feitos, de um punhado de migalhas de pão guardadas, pra nos lembrar do caminho de casa.”

    Um abraço, Kleber Cruz

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