Discutindo A garota dinamarquesa

Começarei esse post com a sinopse do filme, como forma de contextualização: O drama biográfico apresenta ao público a história de Lili Elbe – primeira mulher transgênero a se submeter a uma cirurgia de redesignação de sexo. Ao lado de Alicia Vikander – no papel da mulher de Lili, Gerda Wegener -, Eddie Redmayne dá vida à artista e traz para os cinemas os dramas pessoais, a vida profissional e a jornada de Lili até ser considerada pioneira transgênero. (sinopse retirada do site Cinepop)

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Pintura original de Gerda, que retrata a própria pintora e Lili Elbe.

Agora, ao post.

Li outro dia que algumas salas de cinema do Brasil estão se recusando a passar A garota dinamarquesa e percebi, mais ainda do que quando assisti ao filme, o quanto ele é importante. Se em pleno 2016 um filme lindo como esse sofre boicote somente porque conta a vida de uma pessoa transexual, então ele é, mais do que nunca, necessário. Aliás, esse preconceito não é visto somente no Brasil, em outros países o filme também encontrou dificuldade para ser exibido, sendo até proibido em alguns. Proibido! E acredito que por conta dessa polêmica e por causa do tema, A garota dinamarquesa não foi indicado em mais categorias, inclusive a de melhor filme, porque ele é melhor, não só pelo roteiro, mas pela direção, fotografia, e vários aspectos técnicos, do que a maioria dos filmes indicados – pra não dizer que é melhor que todos, que é a minha opinião. (a lista das categorias pelas quais o filme foi indicado está no final desse post)

Acho revoltante o modo como a Academia acha mais fácil esnobar um filme porque trata de um assunto polêmico (que não deveria ser polêmico, mas ok) do que fazer justiça à maestria que é esse filme. Começando pela fotografia (que agora é chamada de cinematografia pela Oscars Academy), feita por Danny Cohen (mesmo diretor de fotografia de O quarto e Jack, inclusive) que achei, de longe, a mais injustiçada. O que é a fotografia desse filme? Uma das melhores que já vi em muitos anos. Cada cena que aparece é um quadro. Um quadro! Como os personagens principais são pintores (acredito – tenho quase certeza – que é por isso), a maioria das cenas, seja de paisagem, seja de um grupo de pessoas em uma festa, se parece um quadro pintado. É um quadro pintado na tela do cinema! As cores, as texturas, tudo faz parecer um quadro, uma pintura. E isso é incrível! Fiquei tão abismada com esse fato que fiquei repetindo durante o filme inteiro, pra irritação do marido, que “meu Deus, parece um quadro!”. Como um detalhe incrível desse, e que foi tão bem feito, visto que é impossível não perceber a intenção, e você se sente transportado para dentro de uma pintura de verdade, não recebeu uma indicação ao Oscar de melhor cinematografia? Como?

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Percebam o que falei, gente. É um quadro! Uma pintura! E percebam também a Pixie, a cachorrinha no colo de Eddie Redmayne. Mas sobre ela falarei mais pra frente.

Assim como a roteirista Lucinda Coxon, que conseguiu transformar o livro de David Ebershoff em um filme lindíssimo, com um roteiro cheio de sutilezas. Tinha que ter sido indicada a melhor roteiro adaptado! E o diretor, Tom Hooper (que dirigiu os incríveis O discurso do rei e Os miseráveis), que fez um filme tão bonito e sensível, e conseguiu tirar de Alicia Vikander e Eddie Redmayne atuações no auge da excelência. Como um diretor desses não é indicado ao Oscar? Continuarei pra sempre sem entender, e principalmente sem entender o motivo de um grupo de pessoas que deveria estar preocupado com a qualidade de um filme se deixar influenciar por quanto um filme choca as pessoas.

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Sim, essa é uma captura do filme. De uma beleza ímpar! E essa é Alicia Vikander.

Bem, mas não é só de controvérsias e injustiças que esse filme é feito e tivemos indicações justíssimas para Alicia Vikander e Eddie Redmayne, os atores que interpretam de forma magistral os protagonistas do filme – inclusive, os dois são tão protagonistas que algumas pessoas até reclamaram por Alicia ser indicada somente como atriz coadjuvante, e não melhor atriz. Mas não há como negar que o tema central do filme é Lili/Einar, então vejo problema nessa questão. Até porque Alicia, sem sombra de dúvidas, vai ganhar. Não tem como não ganhar. Ela tem vencido todas as premiações até agora com esse filme, e o Oscar não será diferente. Isso porque, como eu já disse antes, ela está fenomenal. Gerda não é uma personagem fácil de ser interpretada. É forte, determinada, tem espírito livre e um jeito de ser que não era comumente visto nas mulheres da época (comecinho do século XX) – mas, sendo Gerda uma artista, e tendo os artistas, geralmente, cabeças e almas mais abertas, é possível entender o motivo de ser a mulher sensacional que era.

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A Gerda verdadeira.

É uma personagem cheia de camadas e nuances, e Alicia consegue interpretar todas, nos fazendo entender o motivo de cada decisão e ação – e nos fazendo sentir junto com ela. É uma atuação emocionante, mas o filme todo é assim. Só que é uma personagem tão boa, tão forte, tão sensível, que não é qualquer atriz que conseguiria dar vida a ela. E Alicia consegue, de forma incrível. E é mais incrível ainda pensar que aquela personagem existiu de verdade. Obviamente, ela não era, na vida real, exatamente igual à personagem do filme, mas por saber que deu força ao então marido e foi crucial na aceitação e transformação na vida dele, só por isso ela já é especial.

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Alicia como Gerda.

E então chegamos a Eddie Redmayne, intérprete de Einar/Lili. E olha, o Oscar que ele ganhou ano passado não é nada em comparação a sua atuação em A garota dinamarquesa. Aliás, a escolha de Eddie para interpretar uma transexual foi outro aspecto que causou rebuliço, porque muitos diziam que uma mulher trans deveria ter sido escalada. Porém, acho que a escolha do ator coube muito bem porque sua vida é mostrada desde antes de ele sequer pensar em fazer qualquer cirurgia, e Eddie conseguiu demonstrar muito bem toda a transformação ocorrida em seu corpo e em seu modo de agir – e até de se movimentar. Ele faz uma atuação minuciosa, impecável, delicada e sensível. E, claro, emocionante, palavra que se repete inúmeras ao falar desse filme.

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Eddie está frágil, forte, corajoso, verdadeiro, todas características de Lili que Eddie demonstra com perfeição. É um papel de total entrega, e foi o que o ator fez, se entregou totalmente. Podemos notar a urgência de Einar para ser Lili, sentimos seu desespero, e também sua felicidade quando consegue ser quem realmente sempre se sentiu ser: Lili. É lindo demais. É tocante. E cada detalhe da atuação de Eddie nos leva a sentir tudo que Lili está sentindo. É tão incrível que eu tenho até dificuldade em explicar – o que sempre acontece com coisas que gosto muito. E nossa, como eu gostei desse filme. Da parte técnica, da delicadeza com que o relacionamento de Lili e Gerda é tratado, do respeito que mostra para com pessoas que passam situações como as que Lili passa. É de uma beleza absoluta esse filme, é indescritível, é preciso assistir.

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Lili e Gerda.

Esse filme me tocou tanto, mas tanto, que, além de fazer esse post imenso sobre ele, eu estou até hoje, mais de duas semanas depois de assisti-lo, pensando sobre ele. Em como as pessoas tem dificuldade em sentir empatia pelos outros, principalmente quando é algo que não entendem ou não aconteceu com eles. E também pensando em como há tanta ignorância, ainda, em relação ao tema. Pensando em como Lili e Greta foram corajosas, em como deve ter sido sofrido para Lili, física e emocionalmente. E em como ainda é sofrido para tantas pessoas que nascem em corpos que não sentem serem seus, que sentem serem errados (eu só me acho feia e já é uma sofrência só), e ainda ter que aguentar o preconceito de pessoas que não conseguem entender e respeitar.

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Einar e Lili.

Como eu disse antes, é um tema muito importante de ser abordado. É preciso ser conversado com naturalidade, para o preconceito e a ignorância terem um fim. Por isso esse post imenso. Por isso as palavras emocionadas. Porque precisamos falar mais sobre isso. A garota dinamarquesa precisa ser vista, todas elas, todos eles.

Indicações: Melhor ator (Eddie Redmayne), Melhor atriz coadjuvante (Alicia Vikander), Melhor figurino (Paco Delgado), Melhor design de produção (Eve Stewart, Michael Standish).

Ah! Como eu havia prometido no início, vou falar agora da cadelinha da foto, que no filme acho que é macho, e é do casal protagonista do filme. Gente, que coisa mais linda que ela é! Ela é super boa atriz! Tem uma hora que estão todos tristes na cena – e ela também está! Gente, morri! Até marido, que gosta de animais, mas não é maluco por eles como eu, comentou sobre ela enquanto assistíamos. Pesquisando sobre ela (achei um vídeo que é uma fofura!), descobri que seu nome é Pixie, tem três anos e é a coisa mais linda do mundo! Ah não, isso a gente já sabia, né?

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Pixie. Olha essa carinha! Não dá vontade de apertar?

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2 comentários sobre “Discutindo A garota dinamarquesa

  1. Denise disse:

    Lívia, pausa para achar um defeito neste filme…………………………. Não tem. A escolha dos atores não poderia ser melhor. É tanta empatia junta que a gente torce muito por eles. E, você tem razão, filme bom é aquele que fica na memória dias depois. É como se tivéssemos vivido toda a experiência com eles. Quero assistir de novo muitas e muitas vezes…bjs

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