Alice Maria (cap. 4)

(e às 23:46 de uma 5a feira, ela surge de volta. com vocês, Alice Maria)

*

Faltam dois dias pro ano novo, estamos todos no apartamento de Ulisses e Elisa, decidindo como será o ano novo. Na verdade, como vamos para o ano novo, que esse ano não será no apartamento de Ulisses (e Elisa), como todo ano, e sim na casa de Fausto em Búzios (“Foi um ano difícil, a gente tem que pelo menos terminar ele com uma festa de arromba”, disse alguém que não lembro quem foi). Não consigo parar de olhar pra Bernardo, sentado ao lado de Daniela, batendo altos papos. Como pode Bernardo, sabendo que somos todos inimigos declarados de Daniela (a garota quase expulsou Elisa da própria casa por ciúmes do Ulisses!), ter ficado amigo dela? “Ela não é tão ruim quando se conhece melhor”, disse ele. Não importa! Você não devia sequer ter querido conhece-la, pra começo de conversa, eu disse. Ou não disse, talvez tenha ficado somente na minha cabeça. Não, eu provavelmente disse. Mas ainda assim Bernardo não me ouviu e agora fica aí, de amizade com o inimigo. Traidor! Tô com tanta raiva que nem escuto quando Elisa pergunta se minha irmã vai mesmo com a gente pra Búzios, como ela tinha dito da última vez que encontrou a galera. Só reparo quando Elisa enfia a cabeça bem na minha frente e grita:

“Aliceeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!”

Dou uma breve golfada para dentro da boca devido ao susto. Os outros riem. Daniela também. Ah, eu quebro todos os seus dentinhos , um a um, e faço você engolir! Os outros são meus melhores amigos desde sempre, já você…

“Sua irmã vai com a gente?” Elisa repete, provavelmente mais enfática que da última vez.

“Vai, cruzes.” Respondo, soltando a perna de Rodrigo, que agarrei automaticamente quando Elisa berrou na minha cara. Logo depois, ele puxa a perna pra cima da cadeira que está sentado. Será que tem alguma ligação?

“Então somos onze.”

“Doze.” Diz Valentina de sua cadeira. “Meu irmão também vai porque meus pais vão pra uma festa de adultos.

Todos reparamos na irritação na voz de Valentina, mas decidimos ignorar para não deixar a situação ainda pior. A gente sabe que Valentina odeia a pouca atenção que seus pais dão ao Lucca e ela tá super certa – se é pra ter filho, é pra cuidar (ai meu deus, se é pra ter filho, é pra cuidar!!!!!!!!!!!!!!!) – , mas melhor não incentivar pra ela não se entristecer mais ainda.

“Mais alguém que não tinha avisado antes que ia e agora decidiu que vai, mesmo a gente já tendo comprado tudo pro ano novo?”

Tenho até medo de levantar o dedo pra falar que meu irmão vai com a namorada, mas tenho que fazer, mesmo tendo que enfrentar o olhar fuzilante de Elisa.

“Mas ele vai de carro, então, na verdade, mais ajuda do que atrapalha.” Adiciono.

Não adianta. Elisa bufa. Me lembrou alguém…

Portanto, assim vamos no dia 31: Valentina, Estevão e Lucca no carro do Ulisses;  Bernardo e a namorada (Érika) no carro da recém bff do Bernardo (ew!); Amanda e Julia, minha “cunhada”, no carro do Alan; e eu, Rodrigo e Elisa com Fausto. Eu só rezava pro Fausto e pra Elisa não darem com a língua nos dentes no caminho, e nem ninguém falar NADA durante a estada em Búzios.

 

Magicamente, conseguimos todos acordar cedo para a viagem no dia 31. Saímos um pouco mais tarde que o esperado (às sete, em vez de cinco, como Estevão sugeriu), mas ainda cedo. Não sei como consegui acordar às seis da manhã depois de ter dormido às quatro, isso porque Rodrigo dormiu em casa e quis fazer coisas e eu não quis (pois é, nunca achei que isso fosse possível) porque senão, bem, ele iria ver minha barriga. E com isso fiquei pensando que eu teria que contar logo, antes que eu pareça uma grávida de verdade – e antes também de ouvir algum telefonema da minha mãe, que desde que soube, me liga todo dia, perguntando como estou me sentindo e com várias dicas de como passar uma gravidez tranquila – e com isso a insônia imperou, claro. Não sei mais que desculpa dar, não sei mais como agir, e isso está me dando nos nervos. Talvez tenha sido por isso que passei tão mal durante o caminho até Búzios porque, até então, eu não tinha ficado nem enjoada. Fausto e Elisa se entreolhavam toda vez que eu pedia pra parar o carro pra vomitar (ODEIO vomitar em saquinhos, só me faz querer vomitar mais ainda, com aquela gosma tão perto do meu nariz e o cheiro que fica impregnado ali dentro), mas Rodrigo não desconfiou de nada. Achou só que eu tinha comido alguma coisa estragada – ainda bem.

Por causa dessas paradas, chegamos mais tarde que o resto das pessoas. O que foi bom, porque escapamos de pelo menos duas horas de arrumação, já que eles acharam que “se Fausto chegar e as coisas não estiverem em ordem, ele vai dar um chilique”. O que era verdade. Porém, fui liberada da arrumação. Fausto disse que depois de fazer tanto esforço pra colocar tanta coisa pra fora, eu precisava de um tempo pra recalibrar. Não me opus, obviamente. Por isso, deixei minhas coisas no quarto que eu dividiria com Rodrigo, meus irmãos e Julia (a casa era grande, mas não infinita), e fui pegar um ar na beira da piscina.

*

“De onde você acha que surgiu o vento?”

“A gente já teve essa conversa, Alice.”

Olho para o céu. E então para Fausto. E tento outra conversa.

“Você acha que a gente vai confundir estrela com fogos de novo?”

“Isso não vai colar dessa vez, Alice.”

Cara confusa da minha parte.

“Você não vai ficar falando de assuntos aleatórios pra fugir dos seus problemas, ainda mais quando eles são in-fugíveis.”

Cara irritada da minha parte.

“Não é mais fácil resolver tudo logo?”

Cara de ódio da minha parte.

Levanto e vou ajudar a arrumar a casa. Melhor do que ouvir o sermão de Fausto. Decepção.

 

Depois disso, passo o dia emburrada. Entristecida. Amuada. Como você quiser chamar. Finjo escutar conversas que, na verdade, estão passando batidas por mim. Me concentro em atividades que só faço para fugir de qualquer contato humano. Não quero conversar. Não quero estar na presença de outras pessoas, nem de Lucca, que afasto com peso no coração quando vem me chamar pra jogar videogame. Eu amo essa criança, mas não tô conseguindo lidar. E eu não quero lidar com porra nenhuma. Por que Fausto foi falar isso? Logo ele, cheio dos problemas pra resolver e só empurra com a barriga. Barriga… Melhor pensar em outra coisa.

 

Alice Maria é personagem do livro Queria tanto, de minha autoria, publicado em 2011 pela editora Benvirá. Porém, a história que aparecerá aqui no blog de vez em quando não é a mesma do livro, é uma história totalmente nova, uma continuação, feita somente para vocês.

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Alice Maria (cap. 3)

Gente, eu até tentei escrever sobre outra coisa aqui no blog hoje, mas Alice tá muito afoita aqui pra saber a opinião de vocês sobre a vida dela, então eu fui obrigada a postar mais um capítulo. Tô adorando o feedback de vocês! Não parem de comentar não, please! 😉

Beijocas!

_________________*________________________*___________

Cena 3, interna, noite. Alice Maria, 26, caminha em seu apartamento extremamente bagunçado, só ela e seu gato amarelo Snoopy, que ronrona sem parar pelos seus pés enquanto ela quase chuta o gato por ele não parar de andar pelos seus pés. O espectador não sabe, mas Alice está tendo uma imensa batalha interna e seus órgãos não param de revirar porque 1)ela está grávida, o que, incrivelmente, é o que menos conta para a situação atual de seus órgãos, ou seja, o fato de eles estarem se revirando, e 2) ela não faz ideia de como contar para o pai da criança que essa criança é sua filha. Ou filho. Porque ela ainda não sabe. E ainda tem um motivo 3) para a “reviração” dos órgãos: ela não sabe se quer menino ou menina. O que não deveria ser uma preocupação tão grande, mas devido o estado em que ela se encontra, é a preocupação que resolve  se concentrar, dada que as outras preocupações são de um grau muito maior e Alice, ou seja, eu, não quer pensar nelas.

Vamos lá: nomes. Se for menino, pode ser… Não, vamos começar com os que não podem ser. Não pode ser Alan nem Álvaro, meus irmão e pai respectivamente, porque é total falta de criatividade uma criança ter o mesmo nome que outro alguém da família. Portanto, também não pode se chamar Rodrigo nem Miguel, pai e avô paterno da criança em questão. Também não tem como se chamar Bernardo, ou Fausto, ou Ulisses ou Estevão, porque, bem, são os nomes dos meus melhores amigos e eles estarão com ele o tempo todo. Sem contar que se eu colocar o nome de um, os outros três reclamarão pro resto da vida – principalmente se eu não colocar Fausto. Também não dá pra ser Gabriel. Não posso colocar no meu filho o nome do cara que eu fui apaixonada antes do pai dele. E Felipe é o nome do melhor beijo que dei até hoje, também não dá pra ser. Ok, vamos torcer pra ser menina, não é mesmo? Porque se for homem a criança vai ficar sem nome. Tá bom, nomes de meninas. Não pra Alice (por razões óbvias), não pra Amanda e Ana Maria (apesar de que tanto minha irmã quanto minha mãe iam amar serem “homenageadas”), e não pros nomes das minhas sisters from another misses, Elisa e Valentina. Também não pode ser Larissa (irmã do Rodrigo), nem Mônica (mãe). Não sei porque tô pensando nisso, tem que ser Elis. Sempre teve que ser Elis. E não importa o que Rodrigo vai dizer.

Ai meu Deus, o Rodrigo vai dizer algo. Pro Rodrigo dizer algo, ele tem que saber. E pra ele saber, eu tenho que contar.

Onde eu deixei minha bombinha de asma mesmo?

Ah é, eu não tenho asma.

Por quê????????????????????

 

“Mas Alice, você não disse que seus pais foram super compreensivos?” Valentina pergunta, me entregando um super chá gelado com um canudinho colorido cor de laranja.

“Uhum.” Respondo, dando um super gole no canudinho cor de laranja.

“E você não achava que eles não seriam?”

“Ela achava que seria um ‘tremendo desastre’” Elisa tenta imitar minha voz nas duas últimas palavras, mas essa voz aguda de taquara rachada que ela faz não tem nada a ver com a minha. Paro de tomar meu chá e bufo.

“Então…”

Valentina deixa a frase solta no ar e percebo que ela quer que eu complete de algum jeito. Mas eu não sei como ela quer que eu complete. Não de uma maneira que não termine com uma catástrofe no final.

“Então…” a imito, entonação de dúvida na voz.

“Pode ser que aconteça a mesma coisa com Rodrigo.”

A frase foi de Valentina, mas bufei mesmo assim. Elisa também.

“Você é tão inocente, Valentina… Ele vai ficar maluco!”

“Claro que não, Elisa! Rodrigo é tão legal. Eu tenho certeza que ele vai levar numa boa.”

Quase derrubo meu chá no tapete novo – e lindo – da Valentina depois dessa. Como ele pode levar numa boa a namorada grávida no meio de uma crise econômica no país? Como ele pode levar numa boa quando ele acabou de começar num trabalho novo e não tem estabilidade financeira nenhuma? E quando eu tenho que ter três empregos ao mesmo tempo só pra conseguir pagar as contas? Como ele pode levar numa boa? Digo tudo isso aos gritos pra Valentina antes de sair do apartamento dela, batendo a porta atrás de mim.

 

Subi andares e bati na porta. Fausto abriu, cara de sono, tinha acabado de acordar, fato, mesmo sendo duas horas da tarde. Esse é Fausto. E era dele que eu precisava.

“Não aguento mais a bondade de conto de fadas da Valentina, nem a super sinceridade da Elisa.” Eu disse, sentando na cama. Sim, Fausto tem uma cama na sala. Na verdade, ele tem tudo da sala, já que o apartamento dele é daqueles de um cômodo só. Dono do apartamento derrubou as paredes pra dar um clima mais único e descontraído ao lugar e blábláblá. Ficou a cara do Fausto. “Preciso de uma cerveja.”

“Você não bebe, Alice.” Ele disse, monocórdico.

“E daí?”

“Você tá grávida, Alice.” Mesmo tom de voz de antes.

“Dá pra todo mundo parar de me lembrar disso?”

E ele parou. E ficamos por duas horas assistindo um filme bobo, comendo pipoca e bebendo guaraná, e por essas duas horas eu fui somente Alice Maria, amiga de Fausto, cenógrafa de 26 anos que mora sozinha e não tem preocupações. Eu não disse que era de Fausto que eu precisava?

Alice Maria é personagem do livro Queria tanto, de minha autoria, publicado em 2011 pela editora Benvirá. Porém, a história que aparecerá aqui no blog de vez em quando não é a mesma do livro, é uma história totalmente nova, uma continuação, feita somente para vocês.

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Alice Maria (cap. 2)

Se tem uma coisa que não sei fazer é disfarçar. E fui a pessoa mais ridícula do mundo tentando disfarçar pros meus pais que não, nada estava errado. Ansiosa, eu? Imagina! Tô super normal, feliz, olha, hoje é Natal, quanta comida, vamos comer e não falar mais nada? Mas claro, não consegui esconder nada dos meus irmãos. Sabe-se lá como – nem foi pelos meus dedos tremendo de nervoso, nem minha expressão constantemente alerta -, eles me questionaram, ou melhor, me interrogaram para saber o que diabos estava acontecendo que eu parecia o demônio da tasmânia, ou seja, não parava quieta. E claro, claro, que eu tive que chorar. Ridícula mania de chorar a cada percalço no caminho. Eu tenho 26 anos na cara, pelo amor de Deus, já tinha que ter aprendido a controlar esse choro compulsivo. Se eu não consigo me controlar, como vou conseguir criar uma criança. Ai meu santo cristinho, mais choro de soluçar.

Amanda fechou a porta do nosso ex-quarto (ex meu, ainda dela) enquanto Alan segurava meus braços com as duas mãos, tentando me acalmar. Só faltou balançar, igual em filme. Filme ruim, né, mas ainda assim, filme. Mas ele não me balançou, ele só olhou diretamente nos meus olhos e esperou que eu parasse com “essa palhaçada”, segundo as palavras de Amanda. Ah é, quando eu tô chorando é palhaçada, mas quando ela me liga desesperada aos prantos porque Rafael, namorado dela, queria transar menos porque estava precisando estudar mais, aí tudo bem, né?

“Alice, pelo amor de Deus, fala logo o que tá acontecendo senão eu vou achar que você tá morrendo.”

Desde que sofreu um acidente que deixou ele gravemente ferido, alguns anos atrás, Alan tá assim, dramático. Ok que ele ficou mais próximo da gente, se tornou bem mais carinhoso, mais presente, mas podia ter maneirado na dose de dramaticidade. Bem, eu não posso falar nada, vide a situação em que nos encontramos no momento.

Mas resolvo cooperar. Ou ao menos tento. Experimento colocar em prática o que li sobre a “respiração cachorrinho” – acho que preciso intensificar minhas leituras sobre gravidez porque não posso continuar chamando tudo de nome de animais – e aos poucos consigo me acalmar.

“Agora que parou esse escândalo, dá pra falar?” Amanda pergunta. No que começo a chorar tudo outra vez.

*

Alguns (muitos) minutos – e uma ida de Alan à sala para garantir aos meus pais que está tudo bem, só estamos tendo um “papo de irmãos” (só ele pra fazer com que acreditassem nessa frase estúpida mesmo) -, consigo, enfim, parar de verter lágrimas  suficiente pra contar o que está acontecendo. Explico, pausadamente, mais para meu benefício do que para o deles, já que não sei como reagiria caso contasse tudo de uma vez, que a irmã estúpida deles esqueceu de tomar pílula e aí…

“Você tá grávida??????”

“Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!” meu shhh é quase tão enfático quanto a exclamação de Amanda, então meus pais poderiam muito bem ter ouvido ambos lá da sala. Mas como sabemos que depois da ceia do Natal meu pai sempre dorme e minha mãe aproveita pra ver algum filme na tv sem a interrupção de seu amado esposo, fico mais tranquila. Por dois segundos.

“O que você vai fazer?” Amanda pergunta.

“O que eu vou fazer?” hiperventilo. “O que eu vou fazer, gente?” repito, as lágrima a beira de saírem de novo.

Alan e Amanda ficam me olhando com a mesma cara de interrogação, cara de duas pessoas que não sabem como reagir a uma pessoa desesperada que eles sabiam que não poderia ficar prenha no momento porque, bem, a grana é curta, não é mesmo? Mas que também não vai tirar a criança porque, bem, aborto não é uma opção pra mim, a criança já tá aqui dentro, já é uma pessoa, e como tirar uma pessoa minha? A solução é mesmo me curvar num cantinho e nunca mais sair dali. Mas como não é possível, o que me resta é chorar. E é o que faço, mais uma vez, enquanto os dois continuam me olhando sem saber o que fazer, talvez pelo fato de saberem que odeio ser consolada com abraços. Mas tem horas que é necessário.

“Dá pra vocês dois me abraçarem logo?”

Meu pedido é prontamente atendido.

Alice Maria é personagem do livro Queria tanto, de minha autoria, publicado em 2011 pela editora Benvirá. Porém, a história que aparecerá aqui no blog de vez em quando não é a mesma do livro, é uma história totalmente nova, uma continuação, feita somente para vocês.

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Alice Maria

“Mas é claro que dá, Alice!” foram as palavras gritadas de Elisa enquanto eu me desesperava me olhando no espelho. Pela expressão em seu rosto, ela estava se esforçando ao máximo para não me dar umas sacudidas. “Você acha que o que, seus pais são cegos?”

“Mas Rodrigo não percebeu nada até agora.” eu disse, os olhos marejados, a ansiedade aumentando, a ânsia de vômito crescendo…

“Porque o Rodrigo tem algum problema visual, só pode ser!” Elisa, sempre tão sutil. “E vocês tão há quanto tempo sem fazer sexo? Porque pra ele não ter percebido…” Eu não disse? Sutileza a nível máximo.

“Um tempo aí…” minha resposta.

“Desde que essa criança foi gerada?”

Flashback para explicar a cena atual.

Alice, vulgo eu, e Rodrigo, vulgo namorado, na cama, prestes a… Ah, vocês entenderam. A vontade é imensa, a excitação é múltipla, e a disposição para sair e comprar uma camisinha que está em falta em casa é zero, portanto, decidimos fazer sem. “Você tá tomando pílula mesmo…”, diz ele. No que concordo, afinal, o desejo é sempre maior do que qualquer prudência. Só esqueci de dizer, e também esqueci como um todo, que eu não tinha tomado todos os dias certinho. O que posso fazer? Esqueci. E deu no que deu. Depois de dar. Putz, trocadilho infame.

Enfim, voltando ao presente…

“Três meses sem transar?????” Elisa, estupefata.

Elisa tem tido o costume de ficar estupefata com tudo que falo. “Tô grávida.” Elisa estupefata. “Não contei pro Rodrigo.” Elisa estupefata. “Não Elisa, pelo amor de Deus, não conta pra ele.” Elisa estupefata e puta da vida que vai ter que guardar mais um segredo.

“Três meses e meio.” digo porque, segundo a médica, é quanto tempo estou grávida.

“O que você tá fazendo com esse coitado, Alice?”

“O que?” digo, indignada. “Só porque ele é homem não pode ficar muito tempo sem sexo?”

“NINGUÉM deveria ficar tanto tempo sem sexo, Alice!”

Bufo. Tenho tido o costume de bufar quando Elisa fala. “Alice, você precisa contar pro Rodrigo.” Bufo. “Alice, pelo amor de Deus, eu vou contar pro garoto. O filho não é só seu.” Bufo. “Ok, Alice, faz o que você quiser. É você que tá grávida, não eu.” Bufo. Só pelo costume.

“Esse não é o foco agora, Elisa. O foco é como eu vou disfarçar esse negócio aqui” aponto para minha barriga estufada de bebê, e não de comer demais, como sempre aconteceu, que impede que eu feche o zíper da calça. “no Natal com meus pais!”

“Diz pra eles que deu uma engordada.”

Bufo. Merecidamente.

Alice Maria é personagem do livro Queria tanto, de minha autoria, publicado em 2011 pela editora Benvirá, e dará as caras por aqui de vez em quando.

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Escrever

Sabe quando você está tão cansado que não consegue fazer nada? Não para de encarar a bagunça da sala,  mas sente que não tem condições físicas de colocar tudo no lugar? Você até esquece que colocou a garrafa de água pra encher e quando entra na cozinha, uma hora depois, ela está transbordando e alagando a pia inteira, molhando toda a louça que já estava seca, mas você não teve ânimo para guardar.

Sua cabeça lateja e você tem certeza de que toda exaustão física está,  de algum jeito, ligada à sua exaustão mental, à sua incansável tentativa de arrumar algo pra fazer da vida, de encontrar alguma coisa que você faça bem, ou de, pelo menos, arranjar um emprego qualquer que parece não existir em meio à crise econômica em que seu país se encontra. E aí você cansa. Cansa de pensar, de tentar, de tudo. E a cabeça está quase explodindo. Apesar de você saber que só existe uma coisa que você sabe fazer bem: contar histórias.

Sabe, eu ando por aí inventando histórias. Toda situação é passível a anotações. Até a situação mais trivial, como encher uma garrafa de água ou arrumar uma sala, acaba nas folhas de papel, como se fosse o acontecimento mais importante do mundo. Foi assim que esse texto começou. Mas não sai daí. Nada sai dos cadernos, fica por aí mesmo. Nas histórias,  na minha cabeça. Porque na vida real nada acontece. Não num país onde não dá pra viver de livro. E aí,  o que fazer,  além de continuar a ver histórias incríveis em detalhes cotidianos?

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_________♡_____________♥________

Pessoas bonitas! Quero pedir desculpas pelo sumiço. Tava organizando um brechó esperto com as amigas e o tempo das últimas semanas foi todo pra ele. Mas o evento foi um sucesso e, em breve, falarei mais dele por aqui. Mas agora estou de volta!  Tava com saudades de vocês!

Beijocas!

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Coração fechado

Não quero mais te ver fechar os olhos e dizer que não pode. Já chega de tanta indecisão e puro doce. Eu sei que é isso, doce, é um jogo que você insiste em fazer e eu, sinceramente,  acho patético.  Porque sei que você quer.

Não sei o que se passa na sua cabeça quando diz uma coisa querendo dizer outra. Acha que vai me conquistar assim? Já conseguiu conquistar alguém assim, inventando sensações que não são verdadeiras? Por que você acha que sendo difícil vai me fazer te perseguir (querer ser perseguido já é doentio), insistir,  querer mais? Poderia ser verdade se eu fosse adolescente. Ou imaturo. Se eu fosse dessas pessoas que precisam sentir o tesouro escorrendo pelas mãos para tentar segurar. Eu não sou assim. Eu sou seguro. Eu sou direto.  Eu sei exatamente o que quero e não preciso de jogos infantis pra demonstrar.  Já passei da idade. E, pra ser sincero, nunca achei que se fazendo de difícil é que nos damos valor. Estamos é nos fazendo de ridículos. Portanto, se você me negar vou entender que não está interessado e vou embora.

Veja bem, isso não significa que não te quero entre meus braços e pernas, que não quero sentir sua boca e suas mãos deslizando pelo meu corpo e pela minha existência inteira. Não me entenda mal. Eu quero e já te disse. Mas se você me disser o contrário não há mais nada que eu possa fazer além de te deixar. Ir embora. Não sou de insistir com quem não me anseia, acho até falta de respeito com seus desejos. Então,  seja sincero, verdadeiro,  e eu fico.

Você só tem que dizer “sim”.

Texto inspirado na música Heart is open, do Maroon 5 com Gwen Stefani.

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A quase-morte da viva & Nina (episódio 2)

Eu não morri, mas foi quase! Meu Deus, que semana difícil essa que se passou! Fiquei doente de 4a a 6a feira, e depois no sábado fiquei com dor de velha no ciático que eu não conseguia ficar sentada nem deitada. Horrível! Ontem já tava melhorzinha, mas tava até com medo de sair de casa e ser atingida por um meteoro, dada as circunstâncias! Hoje continuo em casa, só por via das dúvidas, mas amanhã já coloco a cara pra fora de casa porque acho que o perigo já passou e mais nada pode me atingir – ou assim espero.

Mas esse post não veio ao mundo só pra eu ficar chorando pepinos (é essa a expressão?). Ele também veio pra Nina poder dar oi novamente pra vocês! Pra quem perdeu, toda 5a feira tô colocando aqui no blog uma história minha, inédita, especial pra quem lê o blog. E a personagem dessa história é Nina, que é… Ah! Vou deixar ela contar pra vocês. “Mas Livia, hoje não é 5a”. Eu sei! Mas é que como 5a passada eu estava doente, achei justo Nina dar um pulo aqui duas vezes essa semana. E o Projeto 52 em 5 faço amanhã ou na 3a, ok? Então, menos falação e mais história! Beijos!

-*-

Nina

Querida Vida,

Você deve estar se perguntando quem sou eu. Na verdade, você já deve saber, vide que você é minha. Mas pode ser que eu tenha me desviado do meu caminho, o caminho que você tinha traçado para que eu seguisse, e você se encontra confusa com a pessoa que sou agora. Afinal, não sou mais aquela que faz as coisas por serem as certas e as mais seguras. Não sou mais aquela que diz “sim” para um emprego qualquer, um que sei de antemão que não gostarei, só pra ter a tão sonhada – e também tão superestimada – estabilidade. Hoje, eu prefiro viver aos trancos e barrancos, me deprimindo tantas vezes, me desesperando algumas outras, mas sabendo que estou em busca de algo verdadeiro, algo que me emocione, me estimule, do que viver confortável fazendo o que não me satisfaz e, muitas vezes, vai contra o que sou. Ou, se for pra fazer algo assim, que, pelo menos, eu ganhe milhões!

Eu até continuo igual em alguns aspectos. Continuo chorando feito boba em cenas sentimentais de seriados, continuo amando animais mais do que gente, continuo 8 ou 80, continuo tendo emoções intensas e apaixonada por um bom livro, uma boa música, um bom filme, uma boa viagem. Mas hoje, Vida, hoje eu me respeito mais. Hoje eu sei que a culpa nem sempre é minha. Hoje eu sei que sou diferente de muitos, e que muitos não me entenderão, mas que também há outros tantos por aí que gostarão de mim do jeito que sou – e mais, exatamente por eu ser do jeito que sou. E são esses últimos que eu tenho que dar valor, e não continuar numa corrida desenfreada em busca da aceitação de quem não gosta do meu jeito de ser, por mais legal que eu os ache. Porque hoje eu sei que ser sozinha não é a mesma coisa que ser solitária e que a minha companhia é uma maravilha e, como diz o provérbio, “antes só do que mal acompanhada”.

Obviamente, isso tudo não quer dizer que eu não erre. Eu erro. E muito. E fico puta com meus erros. Mas, Vida, hoje eu tento aprender com esses erros, e não mais só ficar reclamando e chorando pelos cantos – por mais difícil que isso seja. Eu tento ver que caminhos posso trilhar a partir dos erros. Porque não tem como eles serem desfeitos, então que sejam reaproveitados. Porque hoje eu sei que você, Vida, foi feita pra se errar, e se xingar, e pra se jogar, e pra não querer, e pra falar palavrão, e pra pedir desculpa, e pra insistir, e pra ficar sem fazer nada sem culpa, e pra fazer tudo ao mesmo tempo, e pra aprender, e pra aceitar, e pra não aceitar também, e pra amar, e pra odiar, e pra ter raiva (porque os sentimentos negativos também ensinam), e pra jogar tudo pro alto, e pra desistir, e pra recomeçar. E, o mais importante, pra comer coisas gostosas!

Além disso, eu sou Nina, tenho quase 30 anos (mas não vamos falar sobre isso), moro sozinha, escrevo nas horas vagas (que é quase sempre, já que estou desempregada no momento), canto alto pela janela quando sinto que preciso berrar, tenho três ex-namorados e duas ex-amigas, e estou numa constante busca da minha felicidade. Quer saber mais alguma coisa?

Da sua,

Nina.