Alice Maria (cap. 4)

(e às 23:46 de uma 5a feira, ela surge de volta. com vocês, Alice Maria)

*

Faltam dois dias pro ano novo, estamos todos no apartamento de Ulisses e Elisa, decidindo como será o ano novo. Na verdade, como vamos para o ano novo, que esse ano não será no apartamento de Ulisses (e Elisa), como todo ano, e sim na casa de Fausto em Búzios (“Foi um ano difícil, a gente tem que pelo menos terminar ele com uma festa de arromba”, disse alguém que não lembro quem foi). Não consigo parar de olhar pra Bernardo, sentado ao lado de Daniela, batendo altos papos. Como pode Bernardo, sabendo que somos todos inimigos declarados de Daniela (a garota quase expulsou Elisa da própria casa por ciúmes do Ulisses!), ter ficado amigo dela? “Ela não é tão ruim quando se conhece melhor”, disse ele. Não importa! Você não devia sequer ter querido conhece-la, pra começo de conversa, eu disse. Ou não disse, talvez tenha ficado somente na minha cabeça. Não, eu provavelmente disse. Mas ainda assim Bernardo não me ouviu e agora fica aí, de amizade com o inimigo. Traidor! Tô com tanta raiva que nem escuto quando Elisa pergunta se minha irmã vai mesmo com a gente pra Búzios, como ela tinha dito da última vez que encontrou a galera. Só reparo quando Elisa enfia a cabeça bem na minha frente e grita:

“Aliceeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!”

Dou uma breve golfada para dentro da boca devido ao susto. Os outros riem. Daniela também. Ah, eu quebro todos os seus dentinhos , um a um, e faço você engolir! Os outros são meus melhores amigos desde sempre, já você…

“Sua irmã vai com a gente?” Elisa repete, provavelmente mais enfática que da última vez.

“Vai, cruzes.” Respondo, soltando a perna de Rodrigo, que agarrei automaticamente quando Elisa berrou na minha cara. Logo depois, ele puxa a perna pra cima da cadeira que está sentado. Será que tem alguma ligação?

“Então somos onze.”

“Doze.” Diz Valentina de sua cadeira. “Meu irmão também vai porque meus pais vão pra uma festa de adultos.

Todos reparamos na irritação na voz de Valentina, mas decidimos ignorar para não deixar a situação ainda pior. A gente sabe que Valentina odeia a pouca atenção que seus pais dão ao Lucca e ela tá super certa – se é pra ter filho, é pra cuidar (ai meu deus, se é pra ter filho, é pra cuidar!!!!!!!!!!!!!!!) – , mas melhor não incentivar pra ela não se entristecer mais ainda.

“Mais alguém que não tinha avisado antes que ia e agora decidiu que vai, mesmo a gente já tendo comprado tudo pro ano novo?”

Tenho até medo de levantar o dedo pra falar que meu irmão vai com a namorada, mas tenho que fazer, mesmo tendo que enfrentar o olhar fuzilante de Elisa.

“Mas ele vai de carro, então, na verdade, mais ajuda do que atrapalha.” Adiciono.

Não adianta. Elisa bufa. Me lembrou alguém…

Portanto, assim vamos no dia 31: Valentina, Estevão e Lucca no carro do Ulisses;  Bernardo e a namorada (Érika) no carro da recém bff do Bernardo (ew!); Amanda e Julia, minha “cunhada”, no carro do Alan; e eu, Rodrigo e Elisa com Fausto. Eu só rezava pro Fausto e pra Elisa não darem com a língua nos dentes no caminho, e nem ninguém falar NADA durante a estada em Búzios.

 

Magicamente, conseguimos todos acordar cedo para a viagem no dia 31. Saímos um pouco mais tarde que o esperado (às sete, em vez de cinco, como Estevão sugeriu), mas ainda cedo. Não sei como consegui acordar às seis da manhã depois de ter dormido às quatro, isso porque Rodrigo dormiu em casa e quis fazer coisas e eu não quis (pois é, nunca achei que isso fosse possível) porque senão, bem, ele iria ver minha barriga. E com isso fiquei pensando que eu teria que contar logo, antes que eu pareça uma grávida de verdade – e antes também de ouvir algum telefonema da minha mãe, que desde que soube, me liga todo dia, perguntando como estou me sentindo e com várias dicas de como passar uma gravidez tranquila – e com isso a insônia imperou, claro. Não sei mais que desculpa dar, não sei mais como agir, e isso está me dando nos nervos. Talvez tenha sido por isso que passei tão mal durante o caminho até Búzios porque, até então, eu não tinha ficado nem enjoada. Fausto e Elisa se entreolhavam toda vez que eu pedia pra parar o carro pra vomitar (ODEIO vomitar em saquinhos, só me faz querer vomitar mais ainda, com aquela gosma tão perto do meu nariz e o cheiro que fica impregnado ali dentro), mas Rodrigo não desconfiou de nada. Achou só que eu tinha comido alguma coisa estragada – ainda bem.

Por causa dessas paradas, chegamos mais tarde que o resto das pessoas. O que foi bom, porque escapamos de pelo menos duas horas de arrumação, já que eles acharam que “se Fausto chegar e as coisas não estiverem em ordem, ele vai dar um chilique”. O que era verdade. Porém, fui liberada da arrumação. Fausto disse que depois de fazer tanto esforço pra colocar tanta coisa pra fora, eu precisava de um tempo pra recalibrar. Não me opus, obviamente. Por isso, deixei minhas coisas no quarto que eu dividiria com Rodrigo, meus irmãos e Julia (a casa era grande, mas não infinita), e fui pegar um ar na beira da piscina.

*

“De onde você acha que surgiu o vento?”

“A gente já teve essa conversa, Alice.”

Olho para o céu. E então para Fausto. E tento outra conversa.

“Você acha que a gente vai confundir estrela com fogos de novo?”

“Isso não vai colar dessa vez, Alice.”

Cara confusa da minha parte.

“Você não vai ficar falando de assuntos aleatórios pra fugir dos seus problemas, ainda mais quando eles são in-fugíveis.”

Cara irritada da minha parte.

“Não é mais fácil resolver tudo logo?”

Cara de ódio da minha parte.

Levanto e vou ajudar a arrumar a casa. Melhor do que ouvir o sermão de Fausto. Decepção.

 

Depois disso, passo o dia emburrada. Entristecida. Amuada. Como você quiser chamar. Finjo escutar conversas que, na verdade, estão passando batidas por mim. Me concentro em atividades que só faço para fugir de qualquer contato humano. Não quero conversar. Não quero estar na presença de outras pessoas, nem de Lucca, que afasto com peso no coração quando vem me chamar pra jogar videogame. Eu amo essa criança, mas não tô conseguindo lidar. E eu não quero lidar com porra nenhuma. Por que Fausto foi falar isso? Logo ele, cheio dos problemas pra resolver e só empurra com a barriga. Barriga… Melhor pensar em outra coisa.

 

Alice Maria é personagem do livro Queria tanto, de minha autoria, publicado em 2011 pela editora Benvirá. Porém, a história que aparecerá aqui no blog de vez em quando não é a mesma do livro, é uma história totalmente nova, uma continuação, feita somente para vocês.

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Alice Maria (cap. 3)

Gente, eu até tentei escrever sobre outra coisa aqui no blog hoje, mas Alice tá muito afoita aqui pra saber a opinião de vocês sobre a vida dela, então eu fui obrigada a postar mais um capítulo. Tô adorando o feedback de vocês! Não parem de comentar não, please! 😉

Beijocas!

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Cena 3, interna, noite. Alice Maria, 26, caminha em seu apartamento extremamente bagunçado, só ela e seu gato amarelo Snoopy, que ronrona sem parar pelos seus pés enquanto ela quase chuta o gato por ele não parar de andar pelos seus pés. O espectador não sabe, mas Alice está tendo uma imensa batalha interna e seus órgãos não param de revirar porque 1)ela está grávida, o que, incrivelmente, é o que menos conta para a situação atual de seus órgãos, ou seja, o fato de eles estarem se revirando, e 2) ela não faz ideia de como contar para o pai da criança que essa criança é sua filha. Ou filho. Porque ela ainda não sabe. E ainda tem um motivo 3) para a “reviração” dos órgãos: ela não sabe se quer menino ou menina. O que não deveria ser uma preocupação tão grande, mas devido o estado em que ela se encontra, é a preocupação que resolve  se concentrar, dada que as outras preocupações são de um grau muito maior e Alice, ou seja, eu, não quer pensar nelas.

Vamos lá: nomes. Se for menino, pode ser… Não, vamos começar com os que não podem ser. Não pode ser Alan nem Álvaro, meus irmão e pai respectivamente, porque é total falta de criatividade uma criança ter o mesmo nome que outro alguém da família. Portanto, também não pode se chamar Rodrigo nem Miguel, pai e avô paterno da criança em questão. Também não tem como se chamar Bernardo, ou Fausto, ou Ulisses ou Estevão, porque, bem, são os nomes dos meus melhores amigos e eles estarão com ele o tempo todo. Sem contar que se eu colocar o nome de um, os outros três reclamarão pro resto da vida – principalmente se eu não colocar Fausto. Também não dá pra ser Gabriel. Não posso colocar no meu filho o nome do cara que eu fui apaixonada antes do pai dele. E Felipe é o nome do melhor beijo que dei até hoje, também não dá pra ser. Ok, vamos torcer pra ser menina, não é mesmo? Porque se for homem a criança vai ficar sem nome. Tá bom, nomes de meninas. Não pra Alice (por razões óbvias), não pra Amanda e Ana Maria (apesar de que tanto minha irmã quanto minha mãe iam amar serem “homenageadas”), e não pros nomes das minhas sisters from another misses, Elisa e Valentina. Também não pode ser Larissa (irmã do Rodrigo), nem Mônica (mãe). Não sei porque tô pensando nisso, tem que ser Elis. Sempre teve que ser Elis. E não importa o que Rodrigo vai dizer.

Ai meu Deus, o Rodrigo vai dizer algo. Pro Rodrigo dizer algo, ele tem que saber. E pra ele saber, eu tenho que contar.

Onde eu deixei minha bombinha de asma mesmo?

Ah é, eu não tenho asma.

Por quê????????????????????

 

“Mas Alice, você não disse que seus pais foram super compreensivos?” Valentina pergunta, me entregando um super chá gelado com um canudinho colorido cor de laranja.

“Uhum.” Respondo, dando um super gole no canudinho cor de laranja.

“E você não achava que eles não seriam?”

“Ela achava que seria um ‘tremendo desastre’” Elisa tenta imitar minha voz nas duas últimas palavras, mas essa voz aguda de taquara rachada que ela faz não tem nada a ver com a minha. Paro de tomar meu chá e bufo.

“Então…”

Valentina deixa a frase solta no ar e percebo que ela quer que eu complete de algum jeito. Mas eu não sei como ela quer que eu complete. Não de uma maneira que não termine com uma catástrofe no final.

“Então…” a imito, entonação de dúvida na voz.

“Pode ser que aconteça a mesma coisa com Rodrigo.”

A frase foi de Valentina, mas bufei mesmo assim. Elisa também.

“Você é tão inocente, Valentina… Ele vai ficar maluco!”

“Claro que não, Elisa! Rodrigo é tão legal. Eu tenho certeza que ele vai levar numa boa.”

Quase derrubo meu chá no tapete novo – e lindo – da Valentina depois dessa. Como ele pode levar numa boa a namorada grávida no meio de uma crise econômica no país? Como ele pode levar numa boa quando ele acabou de começar num trabalho novo e não tem estabilidade financeira nenhuma? E quando eu tenho que ter três empregos ao mesmo tempo só pra conseguir pagar as contas? Como ele pode levar numa boa? Digo tudo isso aos gritos pra Valentina antes de sair do apartamento dela, batendo a porta atrás de mim.

 

Subi andares e bati na porta. Fausto abriu, cara de sono, tinha acabado de acordar, fato, mesmo sendo duas horas da tarde. Esse é Fausto. E era dele que eu precisava.

“Não aguento mais a bondade de conto de fadas da Valentina, nem a super sinceridade da Elisa.” Eu disse, sentando na cama. Sim, Fausto tem uma cama na sala. Na verdade, ele tem tudo da sala, já que o apartamento dele é daqueles de um cômodo só. Dono do apartamento derrubou as paredes pra dar um clima mais único e descontraído ao lugar e blábláblá. Ficou a cara do Fausto. “Preciso de uma cerveja.”

“Você não bebe, Alice.” Ele disse, monocórdico.

“E daí?”

“Você tá grávida, Alice.” Mesmo tom de voz de antes.

“Dá pra todo mundo parar de me lembrar disso?”

E ele parou. E ficamos por duas horas assistindo um filme bobo, comendo pipoca e bebendo guaraná, e por essas duas horas eu fui somente Alice Maria, amiga de Fausto, cenógrafa de 26 anos que mora sozinha e não tem preocupações. Eu não disse que era de Fausto que eu precisava?

Alice Maria é personagem do livro Queria tanto, de minha autoria, publicado em 2011 pela editora Benvirá. Porém, a história que aparecerá aqui no blog de vez em quando não é a mesma do livro, é uma história totalmente nova, uma continuação, feita somente para vocês.

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Alice Maria (cap. 2)

Se tem uma coisa que não sei fazer é disfarçar. E fui a pessoa mais ridícula do mundo tentando disfarçar pros meus pais que não, nada estava errado. Ansiosa, eu? Imagina! Tô super normal, feliz, olha, hoje é Natal, quanta comida, vamos comer e não falar mais nada? Mas claro, não consegui esconder nada dos meus irmãos. Sabe-se lá como – nem foi pelos meus dedos tremendo de nervoso, nem minha expressão constantemente alerta -, eles me questionaram, ou melhor, me interrogaram para saber o que diabos estava acontecendo que eu parecia o demônio da tasmânia, ou seja, não parava quieta. E claro, claro, que eu tive que chorar. Ridícula mania de chorar a cada percalço no caminho. Eu tenho 26 anos na cara, pelo amor de Deus, já tinha que ter aprendido a controlar esse choro compulsivo. Se eu não consigo me controlar, como vou conseguir criar uma criança. Ai meu santo cristinho, mais choro de soluçar.

Amanda fechou a porta do nosso ex-quarto (ex meu, ainda dela) enquanto Alan segurava meus braços com as duas mãos, tentando me acalmar. Só faltou balançar, igual em filme. Filme ruim, né, mas ainda assim, filme. Mas ele não me balançou, ele só olhou diretamente nos meus olhos e esperou que eu parasse com “essa palhaçada”, segundo as palavras de Amanda. Ah é, quando eu tô chorando é palhaçada, mas quando ela me liga desesperada aos prantos porque Rafael, namorado dela, queria transar menos porque estava precisando estudar mais, aí tudo bem, né?

“Alice, pelo amor de Deus, fala logo o que tá acontecendo senão eu vou achar que você tá morrendo.”

Desde que sofreu um acidente que deixou ele gravemente ferido, alguns anos atrás, Alan tá assim, dramático. Ok que ele ficou mais próximo da gente, se tornou bem mais carinhoso, mais presente, mas podia ter maneirado na dose de dramaticidade. Bem, eu não posso falar nada, vide a situação em que nos encontramos no momento.

Mas resolvo cooperar. Ou ao menos tento. Experimento colocar em prática o que li sobre a “respiração cachorrinho” – acho que preciso intensificar minhas leituras sobre gravidez porque não posso continuar chamando tudo de nome de animais – e aos poucos consigo me acalmar.

“Agora que parou esse escândalo, dá pra falar?” Amanda pergunta. No que começo a chorar tudo outra vez.

*

Alguns (muitos) minutos – e uma ida de Alan à sala para garantir aos meus pais que está tudo bem, só estamos tendo um “papo de irmãos” (só ele pra fazer com que acreditassem nessa frase estúpida mesmo) -, consigo, enfim, parar de verter lágrimas  suficiente pra contar o que está acontecendo. Explico, pausadamente, mais para meu benefício do que para o deles, já que não sei como reagiria caso contasse tudo de uma vez, que a irmã estúpida deles esqueceu de tomar pílula e aí…

“Você tá grávida??????”

“Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!” meu shhh é quase tão enfático quanto a exclamação de Amanda, então meus pais poderiam muito bem ter ouvido ambos lá da sala. Mas como sabemos que depois da ceia do Natal meu pai sempre dorme e minha mãe aproveita pra ver algum filme na tv sem a interrupção de seu amado esposo, fico mais tranquila. Por dois segundos.

“O que você vai fazer?” Amanda pergunta.

“O que eu vou fazer?” hiperventilo. “O que eu vou fazer, gente?” repito, as lágrima a beira de saírem de novo.

Alan e Amanda ficam me olhando com a mesma cara de interrogação, cara de duas pessoas que não sabem como reagir a uma pessoa desesperada que eles sabiam que não poderia ficar prenha no momento porque, bem, a grana é curta, não é mesmo? Mas que também não vai tirar a criança porque, bem, aborto não é uma opção pra mim, a criança já tá aqui dentro, já é uma pessoa, e como tirar uma pessoa minha? A solução é mesmo me curvar num cantinho e nunca mais sair dali. Mas como não é possível, o que me resta é chorar. E é o que faço, mais uma vez, enquanto os dois continuam me olhando sem saber o que fazer, talvez pelo fato de saberem que odeio ser consolada com abraços. Mas tem horas que é necessário.

“Dá pra vocês dois me abraçarem logo?”

Meu pedido é prontamente atendido.

Alice Maria é personagem do livro Queria tanto, de minha autoria, publicado em 2011 pela editora Benvirá. Porém, a história que aparecerá aqui no blog de vez em quando não é a mesma do livro, é uma história totalmente nova, uma continuação, feita somente para vocês.

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30 LIVROS EM 1 ANO – Dias roucos e vontades absurdas (Vivian Pizzinga) – LIVRO 27

Começo dizendo que será muito difícil fazer uma resenha desse livro, e ainda mais uma resenha adequada, no nível que o livro merece, porque, como já deve ter dado para perceber, eu AMEI Dias roucos e vontades absurdas, entrou até pra minha lista de melhores livros do ano, e pra mim é muito difícil falar sobre coisas que gostei tanto. Mas depois dessa frase imensa, vou tentar dizer um pouquinho do que esse livro de contos me fez sentir.

The Blurb (retirada do site da editora Oito e meio, porém, bastante editada): Como diria o Dr. Freud para o Dr. Jung: um pouco de neurose é fundamental para a saúde mental. Mas a questão é: qual medida seria razoável, com quanto de neurose se atinge um mínimo de sanidade? Entre o absurdo das vontades e a rouquidão dos dias, os personagens se dividem: se a loucura é uma sensação térmica, uma hora faz calor, outra hora faz frio. Uma autoanálise permanente só traria incertezas ainda mais dramáticas.

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Olha essa capa sensacional!

Preciso começar dizendo que Vivian Pizzinga, a autora do livro, é psicóloga. Sim, começo assim porque enquanto lia o livro não conseguia parar de pensar como uma pessoa sabia explicar tão bem o ser-humano – e suas neuroses – como ela. Quando soube que ela é psicóloga entendi tudo (principalmente porque tenho uma amiga psicóloga que me diz, às vezes, coisas como as de alguns textos). Em seguida, preciso dizer que sou completamente viciada no estudo do comportamento humano, chegando a me perguntar, dia sim, dia não, por que eu não cursei psicologia na faculdade (teria amado, com certeza). E em terceiro, é necessário dizer que faço terapia desde os 14 anos de idade (hoje tenho 30), e me tornei, por causa disso, uma grande analisadora das pessoas (não, eu não fico falando disso com as pessoas porque sei que elas não gostam – a não ser com minha amiga psicóloga. mas pode ter certeza que se algum dia eu te conheci, eu te analisei internamente). Portanto, fica muito claro porque eu fiquei tão apaixonada por esse livro, livro onde a autora expõe, de forma muito clara, nua, crua e cheia de neuroses, a forma como as pessoas agem, pensam, se comunicam e se relacionam. Prato cheio para minha curiosidade insaciável sobre o comportamento e a mente humanos.

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Trecho do meu conto favorito, que dá nome ao livro.

Sabe aquela máxima de que “de perto ninguém é normal”? Nesse livro, isso fica bem claro. São modos de agir que mostram que não existe o “certo”, o “normal”, só o que há é o jeito de cada um e todos eles são possíveis, nenhum está errado, você pode fazer o que quiser. Ok, alguns personagens de alguns contos agem de uma forma condenável, quer dizer, vão contra as leis impostas pela sociedade e lei é lei, né? Mas tirando eles, fica muito claro que tudo depende da forma como você observa uma situação, tudo é explicável e nada é condenável.

A escrita da Vivian também é absurdamente boa. Ela mescla a formalidade e a informalidade e em momento nenhum soa pretensiosa ou forçada. Apesar do assunto tratado (a loucura, a sanidade, a saúde mental), é uma leitura leve, fluida, que você não tem vontade de largar e quer devorar tudo de uma só vez. Fiquei muito impressionada e positivamente surpresa com o livro, ainda mais porque eu havia desistido de lê-lo uma vez porque não gostei do primeiro conto (pois é, nem tudo são beija-flores e arco-íris) e não tive, na época, vontade de continuar. Cheguei a quase dá-lo várias vezes. Ainda bem que não o fiz. Porque é daqueles livros que quero na minha estante pra sempre, pra sempre reler e, com certeza, cada vez que o fizer as palavras terão significados totalmente diferentes, de acordo com o momento da vida. Falando em vida, esse é, com certeza, um dos melhores que li nela. O livro é da editora Oito e meio e custa, em média, 35 reais.

Ah! Ele já tá aqui, separadinho, pra emprestar praquela minha amiga psicóloga que falei que, com certeza absoluta, vai amar! Mas eu quero ele de volta depois, viu Marina? 😉

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A autora, Vivian Pizzinga. Essa foi a melhor foto que encontrei dela, sorry!

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Vende-se uma geladeira azul (Rafael Cal) – LIVRO 26

Hoje vou falar de um livro que na verdade é uma peça de teatro, que foi vencedora de 2014 do Núcleo de Dramaturgia SESI Cultural, mas se saiu em formato de livro, então é livro (assim como as peças de Shakespeare, ou vocês não contam Rei Lear e etc como livro?). E o mais legal é que é de uma pessoa que eu conheço! Ok, conheci muito brevemente, num curso de roteiro que fiz, mas a internet tá aí pra aproximar as pessoas e descobri pelo Facebook que o Rafael escreveu essa peça e faz pouco que ela saiu em formato digital, nesse link aqui, dando oportunidade pra quem não assistiu a peça, como eu, de conhecê-la. E cara, eu adorei! E fiquei pensando “por que eu não fui assistir a peça quando tava em cartaz???”

vendese uma geladeira

A história de Vende-se uma geladeira azul é, basicamente, a história de três irmãos, Anna, Bernardo e João, que se reencontram depois de um tempo por causa da morte de sua avó e para receber a herança da mesma, que descobrem ser somente uma geladeira. Azul, no caso. E aí vem todos os percalços que pensar o que fazer com aquela geladeira velha -e azul – causam. Parece uma história boba, mas não é. Em poucas páginas (são apenas 90 e poucas páginas, se não me engano), dá pra entender todos os nós e origens dessa relação entre os três – ajuda o fato de ter flashbacks dos irmãos quando crianças. Eu gostei muito da linguagem, fácil e informal (todo mundo sabe que adoro linguagem informal), e com jogos de palavras e situações muito interessantes. Gostei muito mesmo da modernidade e do ritmo do texto, me surpreendi. Positivamente. E ficarei no aguardo de mais peças e textos do Rafael Cal por vir.

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O autor da obra.

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Venha ver o pôr-do-sol & outros contos (Lygia Fagundes Telles) – LIVRO 24

Sim, eu assumo: na reta final do projeto, comecei a ler vários livros de contos porque eu estava com medo de não conseguir chegar aos 30 livros, que era meu objetivo final, e contos são mais rápidos de ler. Por isso, fiquei muito feliz e contente quando minha amiga me emprestou esse livro da Lygia Fagundes Telles, autora que ela adora e eu estava, na verdade, bem curiosa pra conhecer de tanto que ela falava (isso depois de eu parar de confundi-la com a Lygia Bojunga Nunes, autora de livros infantis que eu amava quando era criança). Eu li Venha ver o pôr do sol & outros contos muito rápido mesmo, já que os contos são curtos e fáceis de serem lidos – e interessantes. Bem, alguns. Não posso dizer que amei o livro. Achei o livro todo bem ok. São contos legaizinhos e bom de passar o tempo, mas não achei nada espetacular (desculpa, Marina!).

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Confesso que não sou muito fã de clássicos. Livros clássicos, autores clássicos, pele menos, não os brasileiros (tirando Machado de Assis, que sou apaixonada, e Monteiro Lobato). Gosto muito da literatura atual, de escritores jovens e com linguagem mais informal. Talvez por isso não tenha ficado tão fã assim do livro de Lygia, autora super de renome, ganhadora não só uma, mas duas vezes, do prêmio Jabuti. Lygia também é autora do famoso Ciranda de pedra, que depois foi transformado em novela. Mas não é de Lygia e muito menos de outros livros dela que estou aqui para falar, e sim desse livro específico de contos.

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Como o livro é de 1988, preferi colocar uma foto mais antiga de Lygia também.

O livro tem contos bem dark, clima não muito comum para mulheres escreverem, muito menos naquela época. É algo bem interessante e diferente, difícil de ser encontrado até na literatura aqui do país. Isso achei bem legal, essa peculiaridade e que torna sua escrita única. Porém, como todo livro de contos, alguns são mais legais e outros menos. Gostei, particularmente, de um intitulado Natal na barca. Foi o que mais me tocou e alguns trechos mexeram bastante comigo. Mas acho que nenhum outro me moveu internamente como esse. Por isso, não achei o livro sensacional, porque pra eu considerar um livro muito bom, ele tem que transformar ou tocar alguma coisa em mim, e esse, além do conto acima citado, não fez.

“Como não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, e ainda via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Intocável.Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos e aquelas mãos enérgicas.”

Trecho do conto Natal na barca.

Ainda quero ler mais coisas da Lygia porque confio muito nas indicações da minha amiga que me emprestou o livro. Mas esse, infelizmente, não tocou o fundo do meu âmago. Ah! O livro saiu por aqui pela editora Ática, mas entrei no site de várias livrarias e ele se encontra indisponível. Se você tiver interesse de ler, acho que a solução vai ser catar em alguma biblioteca ou pegar emprestado de algum amigo, como eu fiz. 🙂

The Blurb (retirado do Skoob): Oito textos envolventes falam, com sensibilidade, de pessoas comuns, cujas vidas são abaladas por fatos insólitos ou dramáticos.

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