Mensagem

Um pedido de desculpas.

Um “eu não quis acabar com sua autoestima”

Um “eu sei que eu podia ter sido melhor”

Um “eu sei que devia ter feito mais”

Um “você foi importante pra mim”

Um “talvez a mais importante”

Um “você tem valor”

Um “você é incrível do jeito que é”

Um “eu te admiro, de qualquer jeito”

Um “perdão por te fazer duvidar de si mesma”

Um pedido de desculpas.

(tema de hoje do ETEJ: uma mensagem que você gostaria de ter recebido)

Acervo pessoal.

Erva venenosa

Você deixou aqui seu fracasso. Me imbuí dele, agora ele faz parte de mim. Me afoguei nas suas palavras jogadas fora, todas aquelas que você não queria mais. Fui catando uma por uma, recolhendo a parte de si que você não escolheu.

São bonitas as falhas, eu gosto delas. Me fascinam por não terem que impactar. Elas podem ser, simplesmente. Cintilantes, inteiras. Você sempre teve medo. As partes com sombra, as não tão bonitas. Você deixava de lado. Disfarçava pra não ver. Fingia que não existiam. Mas não adianta se fazer cego a algo que berra.

Eu as guardo, protejo. Cuido com carinho até que volte. Até que decida retornar e rever suas partes esquecidas. Abandonadas. Elas te chamam, sabe? Eu sei que você escuta.

Mas fica tranquilo, eu estou aqui. Colocando-as pra dormir toda noite, alimentando pra crescerem forte. Porque sei que um dia você vai precisar voltar e buscá-las. Senão você morre.

Elas são você.

(escrito ouvindo a música Ivy, da Taylor Swift)

Acervo pessoal.

Inverno

Acervo pessoal.

Era inverno. Eu nunca gostei de inverno.

Você sabe.

Aquele frio congelando os ossos, me dando dores que eu não precisava além das que já me abatiam frequentemente.

Saí da cama com dificuldade, abri o armário e peguei um casaco de tricô. Aquele, com minhas cores preferidas.

Você sabe. Você que fez.

Vesti-o e sentei de volta na cama. Não me deitei. Não consegui. Meu corpo ainda acostumado a se deitar encostado no seu. Não sabia muito bem me acomodar na cama sozinha. Muito menos no inverno. Ficava torta, desajeitada, tentando encontrar lugar. Eu não cabia. Não cabia na cama imensa que agora era pequena demais pra somente eu.

Levantei. Era melhor tentar ocupar o corpo com movimentos que me distraíam.

Eu ainda vestia o casaco.

O seu cheiro também.

Eu poderia lavar o casaco quantas vezes fosse, eu te sabia de cor.

Me movia ritmadamente, no tempo normal de cada ação. Automático. Estava tudo gravado em mim.

Você sabe. Você se movimentava comigo a cada manhã, acompanhando os passos, seguindo as direções ou indo para lados contrários. A coreografia rotineira de um casal.

Mas agora eu me movia sozinha. Os mesmos passos, a mesma coreografia.

Esquentei o leite porque estava frio. A gente sempre tomou leite quente no inverno, puro, talvez só um pouco de canela. No seu, eu não gosto de canela. Você sempre tentava colocar uma colherada no meu copo, eu reclamava, você ria.

Você sabe. Era você que fazia.

Coloquei canela hoje. Bebi de uma vez só.

Me arrastei até o sofá apertando os braços, sentindo as fibras do casaco. Estavam um pouco duras, não me importei. Sentei, liguei a TV, dias frios são bons pra ver TV.

Você sabe. Você sempre falava isso.

Passei horas ali, não sei quantas. Perdi as contas. Perdi a vontade. Perdi qualquer desejo. Porque perdi você.

Mas você sabe. Foi você que foi embora.

***

Talvez eu não esteja disposta a pegar seu calor de volta. Talvez eu não queira mais ele. Você me cuspiu sem remorso. Me desistiu como se não houvesse mais procura pra esse produto que já passou da validade. Expurgou o tempo. Estourou o limite. E me descartou sem explicação ou desculpa. Eu não merecia ao menos um por quê?

Não quero seu sol entrando no meu quarto. Me acostumei com o frio. Fiquei amiga dele. E você nunca me esquentou de verdade. Prefiro alguém que eu já saiba que vai me fazer mal a quem me promete e não se afilia. Você nunca se afiliou a mim. Espalhava seu calor por aí pra quem quisesse. Eu era apenas quem cuidava com mais carinho pra crescer mais forte. Quem você tinha certeza que ficaria. Quem você sabia que veria a olho nu. Seu ponto fixo no meio do caos.

Não quero mais ser quem absorve seu mormaço. Que te recebe pra se proteger do frio. Talvez eu saiba me aquecer sozinha. Posso, eu mesma, tricotar o meu casaco, com as minhas cores favoritas, que já são outras.

Não tenho mais medo do frio.

Acervo pessoal.

(juntei dois temas do ETEJ em um texto: “Um dia frio, um bom lugar…” e “O sol saiu, eu vou…”)

Cardápio

Tem dias que eu só queria te comer.

Te colocar na minha frente e te degustar aos pouquinhos. Provar cada pedaço, um por um. Me deliciar com o sabor da sua pele, salgada de suor. Deixar marcas de mordidas pelo seu corpo, pra lembrar de mim no meio de uma tarefa entediante no trabalho e precisar ir ao banheiro. Te experimentar, traiçoeira, fincando minhas unhas na sua barriga. Você geme, não me importa o motivo.

Quero sentir o peso do seu corpo em cima de mim, ofegante. Sentir os arrepios de quando sua barba desliza pelo meu rosto, minha coxa. Te apertar, te deixar roxo.

Quero te fazer gritar.

Tem dias que eu só quero te devorar.

(seguindo o ETEJ, de escrever todos os dias em janeiro, mas sem seguir o tema do dia)

A bolsa

Eu tenho uma bolsinha cheia de arrependimentos. Ando por aí levando ela comigo, cheia, pesada. Ela me pesa. Ela, muitas vezes, me faz não conseguir enxergar o futuro. Na maioria das vezes. Porque ela me faz ficar de olho no passado. Revivendo, repensando, me culpando por não ter feito diferente.

Hoje conversei com uma amiga que me disse não se prender às suas ações do passado. Ela disse que sabe que agiu do jeito que pôde com as ferramentas que tinha no momento. Eu sei isso na teoria. Já ouvi na terapia, já ouvi em podcasts, já ouvi em vídeos de pessoas que falam sobre saúde mental, já conversei com outras amigas. A teoria é sempre mais fácil. Eu tenho um problema com a prática. Eu tento, não pensem que não faço. Mas entender o “como” sempre me foi difícil. Não trabalho bem com lógica, com organizações, com coisas funcionais. O subjetivo é óbvio pra mim, o objetivo é água turva. Me perco. Mas sei que um dia chego lá. Ao contrário do que muitos pensam, sou forte e não desisto. Parece frase de autoajuda? Dane-se, não ligo. Cansei de me julgar.

Por isso não quero pensar no que poderia ter feito diferente. Não quero voltar à culpa que de tão constante é quase amiga. Quero pensar no que vai vir. Nem isso, quero estar no presente. Bem good vibes mesmo, galera chão de taco energia astral. Ser o que dá pra ser agora. Moldar o futuro a partir de hoje porque o passado não é maleável. Então eu quero só ser. Hoje.

(texto escrito a partir do tema do dia 06 do ETEJ de janeiro, do Projeto Escrita Criativa: um capítulo da sua vida que você gostaria de reescrever).

Em algum lugar do passado

Ainda não fui dormir, então pra mim ainda é domingo, dia 02 de janeiro. Portanto escreverei aqui meu texto do dia 2 do ETEJ. ETEJ é sigla para Escrevemos todos em Janeiro, criado pelas mulheres à frente do Projeto Escrita Criativa. Nele, há um tema para cada dia do mês de janeiro e os escritores escrevem a partir dele para estimular a criatividade e a escrita. Se você quiser conhecer mais sobre o ETEJ e sobre o Projeto Escrita Criativa, dá uma olhadinha no site porque lá tem muuuuuuita informação para escritores iniciantes e não-iniciantes também: https://projetoescritacriativa.blogspot.com.

Ano passado participei do ETEJ de julho, mas acabei colocando todos os textos no Instagram. Como estou dando tempo da rede social nesse mês, vou postar os textos aqui. O tema desse dia 02 (sim, eu pulei o dia 01) é: presente, passado ou futuro – onde você gostaria de estar agora? Acho que o título dessa postagem já dá um indício da minha resposta, né?

Em algum lugar do passado eu fui feliz. Num lugar longínquo, quando não existiam cobranças ou obrigações, eu acordava e sorria. Quando não havia comparações ou exigências. Quando meu valor não era medido em quanto eu produzo ou o quanto me pareço com as mulheres que todo mundo ama amar. Quando eu não tinha noção das disparidades entre as pessoas e achava que o mundo é justo. Quando eu achava que podia, eu mesma, melhorar o mundo.

Nessa época, eu era ouvida. Nessa época, eu achava que isso seria pra sempre. Que o que eu falo tem importância e afeta os outros positivamente. Nessa época, eu pensava como seria meu futuro e achava que seria bom. Não sabia o que seria, mas achava que seria bom. E era bom achar que o futuro seria bom, que eu seria alguém, que eu seria amada, que eu não seria sozinha. Nessa época, eu sabia sonhar. E, talvez por causa disso, eu também sabia criar. Nesse lugar do passado, eu achava que era inteligente, especial, habilidosa pra tanta coisa… Não tinha deixado tudo ficar pelo caminho e nem percebido que era medíocre em tudo. Era uma época boa.

Acredita que eu acreditava que os presidentes realmente pensavam no bem da população? E os que não pensavam eram raridade, e não maioria. Acreditava que o que movia o mundo era fazer o bem e ser legal, e não o dinheiro. Acreditava que se alguém fosse ruim, não chegaria a lugar nenhum, e se alguém fosse bom, colheria os frutos disso, em todos os sentidos.

Eu não sabia que muitos animais eram abandonados a cada dia. Não conhecia a expressão abandono parental. Não sabia que a maioria da espécime masculina do ser humano é horrível. Não sabia que o ser humano estava acabando com o planeta terra. Era mesmo uma época boa.

O presente é uma total desgraça, e não acho que muita coisa vá melhorar no futuro – uma coisa que, nessa época aí de cima, eu achava que aconteceria. Por isso eu queria, se desse, estar de volta à minha infância, e ainda carregar a esperança comigo. Porque hoje em dia, nesse presente em ruínas, ela se perdeu por aí.

Vício

Olha lá você, me chamando mais uma vez. Não bastou aquele sorriso, o toque que me doeu. Será que você não percebe que não sou capaz de negar? Mesmo sendo perigoso, mostro todo canto de mim enquanto você se esconde e só me revela cada vez mais.

Olha lá você, me buscando mais uma vez. O seu corpo é receptáculo do medo, me instiga só pra se proteger da chuva. Eu que acabo ficando gripada.

Olha lá você, me fisgando mais uma vez. Você tem ciência e sua consciência te permite me abrir os braços para, logo em seguida, me desabitar. Se desobriga de responsabilidades e escancara as portas. Me deixa tombada no chão.

Olha lá você, me abandonando mais uma vez. Sua boca é perigo e eu caio. Me entrego pra depois ser demolida. Conhecido caminho das desilusões.

Foto de Sondem, no Adobe Stock.

Ansiedade

Sabe quando você tem ansiedade? Dai você pensa “eu não quero ter ansiedade”. Daí não adianta nada, óbvio, e você continua tendo ansiedade.

Daí você tem uma crise de ansiedade. Aí na hora, quando você tá sentindo falta de ar, tontura, dor de barriga, tendo piriri, coração batendo acelerado, além de pensar, pensar não, de ter certeza que você vai morrer, você pensa “eu não tô ansiosa, para tudo isso, só relaxa”. Daí você respira fundo, tenta aquelas milhões de técnicas de respiração que você viu em centenas de canais good vibes no YouTube, mas você continua sentindo falta de ar, tontura, dor de barriga, piriri. Quanto mais você pensa “eu não quero ter crise”, mais você tem crise. Quanto mais você pensa “eu não quero ficar ansiosa”, mais você fica ansiosa.

Daí te dizem, às vezes você mesma chega na solução sozinha, que você não pode querer não ficar ansiosa, porque senão você nunca vai conseguir não ficar ansiosa, porque a obrigação de não ficar ansiosa gera ansiedade. Daí quando você sente que tá pra ficar ansiosa ou pra ter uma crise de ansiedade, você pensa “eu não posso pensar que não quero ficar ansiosa porque senão eu vou ficar ansiosa”. Daí você fica ansiosa pensando que não pode pensar que não quer ficar ansiosa. Ou seja, dane-se, né. Você vai ficar ansiosa de qualquer jeito, melhor se entregar de uma vez. Vai que assim você não fica ansiosa.

Eu sei ser leve

Eu sei ser leve

Passei anos pensando não ser

Quando achava que só podia ser ar

E não aceitava meus fogos

Rejeitava as sombras

Quando se é ensinada que é preciso só sorrir

Dar a outra face

Mundo cor de rosa não existe

É possível ser “não”

É necessário ser “não”

Às vezes

Me descobri com asas

Já era assim faz tempo

Não o tempo todo

Como queriam

Me obrigavam

Sinto desapontá-los

Talvez não

Mas agora entendo

Que sou livre

(escrito ouvindo a música “A cor é rosa”, do Silva)