Primeiro de novembro

Eu gosto quando me olha

De canto de olho, pra eu não perceber

Vira a esquina e pum, lá vem o pescocinho

Dando a volta, girando, disfarçado

Eu finjo não ver

Assobio, canto um pouco

Rodo a colher na panela

Pra você não notar no meio do vapor

Mas você tá ali, à espreita

Fingindo que não me quer

Mas eu sei, amor, eu sei

Que tudo que a gente precisa

É rir junto

E então você mostra

Que me ama também

Dia primeiro de novembro é aniversário da Lucie, protagonista do meu livro “Coisas não ditas”. “Primeiro de novembro” é um poema que Rafa escreveu em sua homenagem. Quem é Rafa? Lê o livro pra descobrir… E hoje tem novidade sobre “Coisas não ditas” no meu Instagram! Vai lá pra saber! https://www.instagram.com/liviagbrazil/

Dois filmes importantes para o momento político atual

Eu gostaria que “Transe” estreasse nas telas de cinema agora, antes do dia 30 de outubro. Assim como gostaria que “Argentina, 1985” estreasse antes desse dia também (de fato, estreará: no dia 21 de outubro na Amazon Prime Video). O primeiro pra lembrar à população todas as merdas que esse bosta na presidência do país já falou. O segundo pra lembrar ao mundo os horrores da Ditadura, que esse bosta na presidência do país apoia e exalta. Tá que eu acho que não ia adiantar muito. Assisti Argentina, 1985 pensando que se algum bolsonarista assistisse esse filme, que fala sobre a ditadura na Argentina, e visse os relatos das pessoas que sofreram tortura, diriam ou que mereceram ou que as pessoas estão mentindo. Não acreditam em fatos e acreditam em fake news criadas por esse governo, nunca entenderei isso.

“Transe” eu gostaria que fosse lançado pra ver se alguém acorda ouvindo os discursos proferidos por Bolsonaro que estão no filme. Talvez seja ingênuo da minha parte achar que depois de 4 anos de tanto terror e um país tão mal governado um filme vá fazer alguém acordar. Mas eu tenho esperança. Eu acredito no poder de mudança da arte. Acredito que, ás vezes, uma coisa dita de outra forma, algo escancarado numa tela de cinema imensa possa fazer alguém enxergar os fatos que estão óbvios nas caras das pessoas e elas não veem. Sei lá, sou otimista (ou só assim pra eu não perder de vez a esperança na humanidade).

Só sei que são dois filmes muito necessários e que deveriam, sim, entrar em cartaz antes do dia 30 de outubro, pra ver se dá pra mudar algum voto.

“Transe” é um espelho do que foi 2018 pra esquerda, principalmente a esquerda chamada festiva, que não estava entendendo muito bem a força que esse traste tinha no Brasil. Ou, talvez, não enxergava o ódio que as pessoas tinham pelo PT. Porque o filme mostra, de maneira bem realista, já que foi gravado à medida que os acontecimentos iam se dando (apesar de ser uma ficção, e não documentário), a esquerda (essa parte da esquerda) se dando conta, aos poucos, que ele podia, sim, ganhar. Mostra jovens utópicos que achavam que seria impossível ter alguém como ele na presidência, que óbvio que o povo brasileiro nunca o elegeria, e aos poucos percebendo que seria, sim, possível que acontecesse. E perdendo, também aos poucos, a esperança e a alegria. Tudo isso entremeado com trechos de discursos reais de Bolsonaro em entrevistas e em comícios. Seria importante o filme ser lançado agora, que estamos em vias do segundo turno de uma nova eleição, e que temos, infelizmente, novamente esse embate entre Bolsonaro e o PT. Um embate que, após tudo que aconteceu, nunca deveria existir porque como que esse cara pode ter tido uma porcentagem de votação tão próxima à de alguém que pensa, de fato, no povo brasileiro, todo ele, e não em só uma parcela? O filme serve para abrir os olhos da esquerda e perceber que devemos continuar lutando, virando voto, fazer o que der pra fazer Lula presidente. Porque mais 4 anos com esse cara não dá! NÃO DÁ!

“Argentina, 1985”, como já disse, fala sobre a Ditadura na Argentina. Apesar de falar sobre Ditadura, o filme, ao contrário de “Transe”, traz mais esperança, porque mostra o julgamento de nove comandantes militares que atuaram na Ditadura Militar. Nem todos foram presos, mas a maioria foi, sim, considerada culpada. Foi um julgamento histórico e que deveria ser “imitado” em todo o mundo. É um filme importante para lembrar do horror que foi a Ditadura Militar e que nunca mais deve se repetir.

Tapete vermelho do Festival do Rio

É uma besteira a gente se sentir menor em lugares muito ricos. Eu mesmo tô cansada de dizer que ter dinheiro não faz ninguém melhor que ninguém, e não faz mesmo. Mas eu não consigo não me sentir estranha quando vou ao Shopping da Gávea.

Pra quem não é do Rio de Janeiro, o Shopping da Gávea é um shopping estranho. As lojas estão sempre vazias, talvez por serem caríssimas – e sem graça. Mas a verdade é que ele é conhecido por ser o shopping dos teatros. Que também são caríssimos, mas enfim. São quatro teatros: o Clara Nunes, o Vanucci, o Teatro das Artes e o Teatro dos Quatro. E quem não mora ali perto só vai nesse shopping pra ir em alguma peça em um desses teatros – e, às vezes, acaba dando uma passada em um dos restaurantes, mas nunca nas lojas. Até porque a Gávea, bairro de classe alta, fica localizada meio fora de mão, com pouco transporte até lá (nem metrô tem!), então o shopping só é frequentado por moradores ou gente que vai em peça mesmo.

Bem, há alguns anos que ele também é frequentado por gente que vai ao cinema. Aberto em 2007, o Estação Net Gávea é mais um complexo de cinema do Grupo Estação, conhecido na cidade por colocar em cartaz filmes que vão além dos longas comerciais. Sabe aqueles filmes que não fazem milhões em bilheteria, que nunca vão ter espaços em salas grandes como os Kinoplex e Cinemarks da vida? Você encontra nos cinemas do Grupo Estação. Sim, senhoras e senhores, os ditos filmes cult (que só não são comerciais e, geralmente, não vêm dos Estados Unidos, porque salas comerciais só sabem dar mais dinheiro ainda pra EUA, muitas vezes não dando espaço nem pra filme nacional – ainda bem que agora eles são obrigados a deixar espaço pro cinema brasileiro). São 4 os cinemas do Grupo Estação: além do da Gávea, tem o Estação Ipanema, o Net Botafogo e o meu preferido, o Net Rio (quem também é em Botafogo, na mesma rua, só a passos de distância do outro). Nos cinemas do Grupo Estação que fica em cartaz a maioria dos filmes do Festival do Rio (e muitos dos filmes só vão ficar em cartaz durante o Festival mesmo, não entrando posteriormente na programação da cidade). E, esse ano, a maioria dos lançamentos de filmes nacionais, com tapete vermelho e artistas convidados, têm sido no Estação Net Gávea, no Estação Net Rio ou no Odeon, que não faz parte do grupo, mas é o cinema mais antigo do Rio de Janeiro no momento (falei um pouco sobre ele nesse post aqui).

Esse ano, também, eu tenho ido cobrir alguns desses tapetes vermelhos pelo Vivente Andante. Escrevo no site cultural, criado por Álvaro Talarico (que conheci na pós-graduação de Jornalismo Cultural), desde 2020. É a primeira vez, contudo, que vou cobrir um evento pela plataforma (obrigada, Álvaro, pela confiança!). Apesar de ficar muito, muito, muito nervosa e nçao conseguir fazer nem uma perguntinha que seja pros artistas, tô amando. Tiro fotos do tapete vermelho, assisto o filme e depois escrevo sobre eles no Vivente. Tem sido uma baita experiência (que ainda não acabou, já que o Festival só acaba domingo – rolando uma repescagem de filmes até 4a feira) e eu tô amando!

Lançamento de “Fogaréu”, de Flávia Neves, no dia 14 de outubro.

Mas por que, você pode estar se perguntando, eu falei sobre o lance de me sentir menor entre pessoas ricas? Porque eu me sinto muito deslocada nesses eventos de lançamento. Talvez seja o fato de eu não ter feito Jornalismo de fato, “somente” a pós em Jornalismo Cultural. Eu sei que tenho embasamento suficiente pra falar de Cinema, já que estudo Cinema há mais de 10 anos, mas como não estudei Jornalismo e não sei a base da profissão, me sinto meio intrusa e que não deveria estar ali. Eu sei, a belíssima síndrome de impostora que atinge a todes (principalmente mulheres). Outro motivo também pode ser porque sempre fiquei muito embasbacada com artistas (talvez pelo fato de sempre querer ser uma). Eu moro no Rio minha vida inteira, uma cidade lotada de artistas, e mesmo assim, quando vejo um, fico toda boba e sem graça. Quando é alguém que eu gosto muito então… A fangirl que habita em mim tem que se segurar pra não pedir pra tirar foto! E também tem o fato de ser no Shopping da Gávea, um shopping que já me intimida por si só, com pessoas que já me intimidam com suas roupas super caras (e que eu não ligo em nada, tô pouco me lixando pra marca, eu realmente não sei pq isso me afeta tanto), com seu ar de superioridade e de existência livre. Não tem sido fácil esses dias no Shopping da Gávea (acho que se os tapetes vermelhos fossem em Botafogo, onde me sinto em casa, eu teria ficado mais confortável). Mas fico feliz que eu tenha encarado os dias do jeito que consegui.

Saguão do Estação Net Gávea.

Mas a verdade verdadeira do motivo desse post é pra dizer que, por ser no Shopping da Gávea, eu tenho me vestido mais “chique”. Ok que tem o fato de eu estar representando uma plataforma cultural oficial e ter que me vestir de maneira mais profissional. Mas, outra vez, se fosse em Botafogo, talvez em me vestisse menos cheia de frufrus (Botafogo é um bairro bem mais alternativo e de boas com aparência). Então, sem mais delongas, eu quero, finalmente, mostrar meus looks de Festival dos dias de tapete vermelho. (depois comparem com as roupas dos outros dias de Festival pra vocês verem a diferença!)

Look pro lançamento de Otto:
de trás p/ diante (abaixo, os diretores do doc,
Helena Lara Resende e Marcos Ribeiro).
Calça que comprei em brechó, mas é da Forever 21,
e blusinha de loja que nem existe mais.
Lançamento de “Bem-vinda, Violeta”, de Fernando Fraiha,
com Débora Falabella, baseado em Cordilheira, do Daniel Galera.
Meu look é calça da Miallegra e blusa comprada em brechó (mas é da Totem).
Pro lançamento de Fogaréu: não faço ideia de onde comprei a blusa,
saia da Naipe e brinco de brechó de igreja em SP.

Festival do Rio + Argentina, 1985

O Festival do Rio está sendo uma volta ao passado pra mim. Mas, na verdade, está sendo uma forma de me manter no presente. Estou voltando com força a frequentar o lado de fora da minha casa. SE desde maio saio somente para eventos pontuais, o Festival está me obrigando a sair de casa quase todos os dias. E está sendo ótimo. Mesmo que, no dia seguinte, eu fique exausta. E demore pra voltar ao “normal”, não estar cansada. Sigo todos os dias cansada. Mas o pós-filme me traz uma energia que eu só sinto nesses momentos. Me traz inspiração. Me traz vida.

Ontem fui assistir “Argentina, 1985”. É sobre a Ditadura na Argentina. Seus efeitos nas pessoas, na sociedade. É sobre justiça também. É sobre a história real de dois promotores (e sua equipe) que foram encarregados de acusar os militares à frente da Ditadura. É um filme pesado. É um filme necessário, principalmente nos dias de hoje, que vemos gente defendendo a Ditadura. Que vemos um governo querer reinar a partir do ódio, da violência. E que defende a Ditadura. Tenho esperança que consigamos expulsar esse governo no fim desse mês, e pra gente conseguir isso é preciso saber muita História, ter conhecimento. Por isso esse filme é importante. Tem uma fala muito forte no longa que diz: “Não tem como alguém saber desses atos feitos e não ser contra.” (não é exatamente assim, mas é o sentido) E é isso, não tem como alguém saber da violência é não ir contra ela. Não é possível que, ainda hoje, alguém acredite que o certo é governar, é ter poder através da violência e do medo.

Os atores de “Argentina, 1985”, Alejandra Flechner (com o microfone) e Peter Lanzani.

Curioso a única sessão desse filme (que estreia no dia 24 de outubro) ter sido no Odeon. O Odeon, que quase fechou algumas vezes, é um dos cinemas mais importantes do Rio de Janeiro, se não for o mais no momento. No Cine Odeon é que foram lançados os grandes filmes da história mundial e brasileira. É um cinema de um grupo de exibição 100% nacional, que também se tornou produtor de um momento importante para a cinematografia do Brasil com a chanchada. Hoje, além de sala de cinema, é palco de exposições, festivais, eventos musicais e vários eventos culturais. E a gente sabe que a cultura pode mudar pensamentos. Ela serve pra educar e pra contar história, como fez esse filme. Pra gente nunca esquecer as merdas que aconteceram e não repetir.

A única (e imensa) sala de cinema do Odeon (foto tirada do segundo andar).

“Argentina, 1985″ é um filme pra ser assistido por todo mundo. E o Odeon, assim como todos os espaços culturais, é um lugar para ser valorizado e mantido. E eu sei que eu quero um governo que valorize nossa cultura.

Segundo andar do Odeon.

Look de Festival

Começou o Festival do Rio aqui no Rio de Janeiro, um festival internacional de cinema que tem todos os anos em diversas salas de cinema da cidade. Eu sou assídua do Festival há mais de 10 anos e, pra mim, é a melhor época do ano. É bom demais passar o dia inteiro correndo de uma sala de cinema pra outra por causa dos filmes que quero ver (porque nem sempre todos os filmes que interessam estão na mesma sala) e mergulhar em longas (e curtas também) diferentes. Porque no Festival geralmente só passa filmes não-comerciais. E é muito legal também porque muitas das sessões têm presença da equipe do filme (gente do Brasil e também de fora), então dá pra conhecer pessoalmente as pessoas que a gente só vê na tela e ouvi-las falar sobre o filme.

Mas hoje não vou falar sobre algum filme que assisti (fiquem de olho no site Vivente Andante, porque vou escrever sobre os filmes por lá), e sim de algo que comecei anos atrás e decidi trazer de volta: o look de Festival.

Eu não sou uma pessoa que se interessa por moda e muito menos vou ficar trazendo foto das coisas que visto por aqui porque, sinceramente, quem se importa? hahahahahaha Mas em época de Festival acho engraçado compartilhar as roupas que visto porque elas são especiais: precisam ser confortáveis pra passar um dia inteiro andando de um lado pro outro e minimamente estilosas, porque, né, Festival do Rio é evento cult, então a gente tem que se vestir a caráter (mentira, eu cago pra isso, mas acho engraçado como a galera do cinema toda parece ter um padrão na hora de se vestir).

Enfim, sem mais delongas, vamos de fotos. Digam aí se vocês curtem o meu estilo. rs.

A blusa foi de um troca-troca de roupas que fiz no meu trabalho,
o casaco comprei em brechó de São Paulo, a calça é da Renner
(a meia também, ou então é da C&A) e o tênis é tão antigo que
não faço ideia de onde comprei, mas é Converse/All Star.
Ah! O cordão foi presente também.

Essa roupa aí de cima foi a que usei pra ir na minha estreia do Festival desse ano, que também foi a estreia do filme Império da luz, do Sam Mendes (vai ter crítica sobre ele por aqui em breve). Foi na abertura do Festival, na 5a feira (06 de outubro), logo após a exibição do filme pra convidados, ou seja, eu vi um bando de artista saindo do cinema, como Débora Bloch e Cristiane Torloni (Johnny Massaro tava lá também, mas eu não vi! Tristeza!). Consegui ingresso de graça porque era só se inscrever num formulário que você podia ter essa possibilidade e fiquei sabendo tarde demais que vários outros filmes tiveram isso (mas agora já tá tudo esgotado). Foi a primeira vez que fui no cinema desde 2020 e ainda foi no Odeon, o cinema mais importante aqui do Rio atualmente, por toda sua história (é um dos cinemas que ainda estão abertos mais antigos da cidade). Foi lá também que uma vez esbarrei no Rodrigo Santoro saindo do banheiro, mas essa história fica pra outro post…

A maioria das pré-estreias estão acontecendo no Odeon
ou no Estação Net Gávea.

Nós, voz, eles 2

Em 2018, falei por aqui do projeto da Sandy chamado Nós, voz, eles. Pois esse ano, 2022, saiu (ou tá saindo) o Nós, voz, eles 2. Essa é a terceira semana da websérie que é postada toda semana no canal do YouTube da Sandy. A cada semana estão soltando dois episódios, que são intercalados: uma semana é de making of e na seguinte é dos clipes das músicas. Mas antes de falar o que achei, vou contar um pouco mais sobre o projeto pra quem não conhece.

Lá em 2018, Sandy começou com esse projeto muito legal de feats (como os jovens chamam as já antigas colaborações) com outros cantores. Um álbum inteiro foi gravado e você encontra todas as músicas nas plataformas de áudio – e também no cana dela no YouTube. Os músicos convidados na época foram Maria Gadú, Mateus Asato, ANAVITÓRIA, Thiaguinho, Melim, Iza, e trouxe também sua família: uma faixa é com Xororó, seu pai, e outra, a minha preferida, é com Lucas Lima, seu marido. O legal desse projeto é que, além das músicas, o espectador pôde conhecer o processo de gravação delas, com imagens feitas no estúdio de Lucas em Campinas.

Essa segunda temporada segue com a mesma proposta: mostrar o making of dessas músicas que Sandy gravou com vários artistas diferentes que, dessa vez, serão seis. Ainda mais do que na primeira temporada de Nós, Voz, Eles (acho genial esse nome, inclusive), os artistas convidados representam uma nova geração de cantores. Até agora, já gravaram com Sandy: Agnes Nunes (quem tem uma música no meu novo livro!), Vitor Kley, OutroEu e a única que é contemporânea de Sandy, Wanessa Camargo.

A música gravada com Wanessa serviu pra parar de vez com o boato de rixa que a mídia cismava existir entre as duas e que hoje a gente sabe que é pura invencionice pra vender revista (na época). E porque nosso mundo é machista e patriarcal e insiste em colocar uma mulher contra a outra. Mas nos bastidores da gravação de Leve dá pra perceber que existe tudo menos uma relação ruim entre Sandy e Wanessa.

Talvez minha música preferida até agora seja De cada vez, que Sandy gravou com Agnes Nunes. Mas a que saiu hoje, Destruição, com OutroEu, está cotada pra entrar nesse rol também (apesar de que, parece, por enquanto, que nenhuma delas chegue aos pés de No escuro ou Areia, da primeira temporada). Vou ter que esperar até semana que vem, contudo, pra escutar a música inteira, porque é quando sai o clipe dessa música e a de Tudo Teu, gravada com Vítor Kley. Mas, pra falar a verdade, as músicas nem são a parte mais interessante desse projeto. Não na minha opinião, pelo menos.

Não sei vocês, mas eu AMO assistir os bastidores das produções artísticas. Amo ver making of de filmes e séries e saber como funcionou as engrenagens para aquela obra específica existir. Com música não é diferente, e pra mim é ainda mais interessante por ser algo que eu tenha menos conhecimento, que eu não saiba muito bem como funciona. Então poder ver como foi o processo de gravação de cada uma das músicas desse EP é o mais legal pra mim. Sei que já falei disso na primeira temporada da série, mas me parece que nessa Sandy e Lucas, que está em todos os episódios também, foram ainda mais fundo para mostrar pra quem tá vendo como eles manejaram cada uma das pecinhas pra montar aquele quebra-cabeça musical. Na primeira temporada, o foco foi muito mais em Sandy e em cada um dos cantores convidados, como rolou o convite, como foi para os cantores serem convidados pra esse projeto. Isso ainda está nessa segunda temporada, mas gostei que eles mostram mais o processo de criação dos arranjos e como os músicos – baterista, guitarrista, baixista, pianista – inseriram suas partes. As conversas que tiveram para os arranjos chegarem ao ponto como ficou. É como se adentrasse mais, também, na mente de Lucas, o produtor musical do álbum, e mostra bem mais essa parte da produção. O que é legal pra caramba de conhecer! Entender como funciona a mente de um produtor, ainda mais um que também é músico de fato, como o Lucas, é incrível demais. E é muito interessante ver como ele enxergar – ou melhor, ouve – coisas que nós, reles mortais, não ouvimos e quando vemos o resultado final, aquilo fica incrível. A cada dia me fascino mais pelo Lucas – e fico mais admirada por todos os talentosíssimos instrumentistas que trabalham com eles.

Uma coisa que aconteceu especialmente nesse último episódio, com o OutroEu, e que eu adorei, foi ver Sandy errando. Eu não sou muito fã de famosos que têm uma aura muito certinha. Tanto as pessoas que fazem questão de parecer num patamar acima de todo mundo (o que não é o caso da Sandy, mas de muitos por aí) e não cometem um erro sequer e são vistos até como divas e divos, tanto quanto pessoas que nem querem ser vistos assim, mas acabam sendo, que é o caso da Sandy. Criou-se uma imagem ao redor da Sandy, que eu reconheço que ela nem pediu, coitada, de que ela é perfeita. Talvez por termos vista ela crescer e terem vendido ela como a menina perfeita do Brasil que canta bem desde pequena, a gente acaba enxergando ela desse jeito mesmo. Mas, além disso, sei que ela é uma pessoa que se cobra muito. Sei porque ela já falou sobre isso. Não sei se, por isso, ela se esforce pra ser sempre legal, não cometer nenhum erro sequer, mas pra mim, toda vez que a vejo, me soa muito não natural. Até o jeito de cantar. Ninguém pode negar que Sandy canta bem e é super afinada. Ninguém. Mas quando ouço Sandy cantar, não sinto emoção. Eu vejo muita técnica, mas não consigo sentir a emoção que gosto de sentir nas músicas que ouço (quem me conhece sabe que gosto de ouvir músicas que tocam o fundo da alma, que têm muita bateria, têm uma pegada pra fazer remexer e desaquietar por dentro mesmo).

Por isso até que gosto desse projeto, por ela cantar com pessoas que trazem essa emoção. E talvez por isso eu tenha gostado, até mais, mais da primeira temporada, porque os cantores convidados têm mais o estilo de cantar que movimenta a gente. Os escolhidos dessa vez são cantores que têm mais o estilo da Sandy, vozes mais “vibes”, que não entregam tanta emoção e trazem mais leveza – que eu sei que muita gente gosta, mas não é o que eu procuro em música. Mas dito isso tudo, nessa episódio com o OutroEu, a Sandy mostra que não sabe tudo e erra algumas vezes. Não no canto, mas em coisas relacionadas à música – e Lucas a corrige por ser um multi-instrumentista. E eu gostei MUITO de vê-las errando. Porque me mostrou que ela é humana. A gente geralmente se identifica com erros, e não com perfeição, né, gente. Eu sei que sou assim. Então gostei muito de ver essa parte da Sandy, a falha. Espero que ela deixe mais momentos como esse nos próximos episódios.

Bem, agora é aguardar, além dos clipes com Vítor e a OutroEu, os bastidores das gravações com os próximos convidados. Só faltam dois, e são eles o pianista Rafael Amado e a Ludmilla! Estou ansiosa.

Nós

Me arremedo nos seus olhos. Eu gosto de olhar pra eles, calmos, enquanto descansa. Geralmente é tão furacão. Uma miríade de ideias fervilhantes, incomuns. Theo gosta de burlar a lógica.

Me entrego aos seus quereres. Theo parece sempre saber o que fazer. Inventa as coisas mais diferentes e eu admiro. Luís também. Somos por demais certinhos, como ele bem diz, e pensamos com os pés no chão. Theo age com a mente no espaço. Nós, bobos, assistimos encantados. Somos espectadores uns dos outros, daqueles melhores, que dão sorriso ao ver o outro passar. É uma besteira só, mas a gente gosta e nem liga quando dizem “o amor é passado”. Pra gente vai ser sempre solução.

Nesse dia, Theo chega em casa cantando. Me olha de canto de olho e me convida a acompanhar. Nego, sempre tive vergonha de cantar. Não gosto da minha voz. Luis diz “que besteira, sua voz é linda” e eu rolo os olhos. Já repararam que todo mundo rola os olhos nos livros? Não tem outra maneira de mostrar discordância?

– Vamos, Lilá! – Theo insiste. Ele veste um grande sorriso, dos maiores que já vi. Quando olho pra Luís, seu rosto parece espelho do de Theo. São lindos, os dois, apesar de o de Luís parecer ter mais dentes.

Canto duas notas, a capella. Mas é claro que há de ser a capella, não temos instrumentos em casa. Theo se anima mais. Luís se levanta, tenta uns passinhos. É engraçado ver Luís dançando, ele é péssimo. E ainda assim não tem medo. Me instiga a cantar mais. Acompanho a voz de Theo. Theo canta bem. Theo dança bem. Às vezes penso se Theo não faz algo ruim. Bem, Luís me chupa bem melhor que Theo. Taí uma coisa.

Ficamos os três feito bobos no meio da sala, Theo ainda de sapatos e Luís com os óculos na mão, cantando e dançando. Me lembra um pouco de Os sonhadores, com quem sempre nos comparam, talvez por já termos refeito a clássica cena da banheira pra uma foto. Mas não sou irmã de ninguém. E Luís é bem mais bonito que Michael Pitt. Nos abraçamos numa embriaguez de serotonina, e rimos porque sentimos que é o que devemos fazer. Gostamos de imitar a ficção.

Photo by Milo Weiler on Unsplash.

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Masoquista

É difícil ainda te querer. Eu não devia, eu sei. Você cortou minhas asas, deu nós nos meus cadarços, me fez olhar pro chão quando tudo o que eu queria era voar. Ir longe. Alto. Você me podou. Me calou quando eu queria gritar. Se calou quando eu precisava te ouvir. Se esquivou de toda e qualquer interação. Adentrou no seu casulo e se negou a sair. Autoprisão.

Talvez tenha sido eu. Eu não vi. Não percebi suas nuances. Os detalhes nos mínimos gestos. As minúcias nas suas ações. Mas eu achava que o combinado era a troca. Você prometeu, lembra?

Então a gente se perdeu. Me perdi de você. Ou você quis se perder de mim. É confuso agora. Tudo é confuso agora. Talvez eu tenha me perdido de mim.

Por isso eu não queria. Tenho medo de continuar atada, acorrentada à você e não ter espaço. Pra mim. Pra ser. Eu. Sozinha. Livre.

Mas como desgarrar?

Imagem de acervo pessoal.

Texto escrito baseado no tema do dia 21 do ETEJ.

Flores

08

Meu avô me entendia. Só ele. Dizia: “Larga essa menina. Deixa ela viver em paz.” Não me deixavam. Ninguém o ouvia. Talvez por isso eu me identificava tanto.

Em casa, eu assistia meus irmãos correrem pra todos os lados. Só assistia. Eu tinha que ficar parada, protegida de mim mesma. Na casa do vô eu podia até tomar sorvete!

Eu sabia que depois ele levava bronca. Eu ficava de canto, orelha na parede ou na porta, ouvindo todos os desaforos que ele também ouvia. “A menina vai morrer!”, diziam. Ele sorria: “Deixa a menina.” Eu sorria do lado de cá. Depois passava por mim, me piscava e me separava pedaço de bolo. Só na casa de vô eu comia pedaço de bolo. Só na casa de vô eu podia ser criança.

Sinto falta do meu guardião.

09

Nunca me deixei ser muito acarinhada. Todo afeto me soava como preocupação. Os cafunés me pareciam desculpa pra colocar a mão na testa e medir temperatura. Os abraços, oportunidade pra reparar se eu estava respirando bem.

Não me caía bem colo de mãe. Ele servia pra eu ser examinada, investigada. O coração está batendo direito? Dói em algum lugar? Eu só queria ver meus musicais em paz e dançar em cima do sofá. Mas me enfiavam termômetro, mediam pulso, colocavam roupa quente quando eu não sentia frio. Eu queria correr pelos cômodos, cantar pulando na cama, brincar com os cachorros no quintal. Mas era embrulhada em cobertas e me diziam “é pro seu bem”. E me abraçavam. Eu não queria abraços. Não queria colo. Só queria ser criança.

Não pude.

10

Não sei o que é conselho de pai. O meu passava os dias longe, dizia trabalhar. Eu sabia que era por minha causa. Eu já era trabalho demais, uma criança doente que precisava de cuidados constantes. Era mais fácil trabalhar fora. Menos desgastante.

Foi nesse trabalhar fora que ele conheceu outra mulher. Ela também tinha filhos, mas eles não podiam morrer do dia para a noite. Ele escolheu a tranquilidade, foi embora. Não o julgo, eu também não me escolheria.

Por minha culpa meus irmãos perderam o pai. Por minha culpa minha mãe permaneceu sozinha cuidando dos filhos. Dois são e uma problemática. O defeito da família. Que quebrou os laços invisíveis e desatou o que deveria ser sólido. Por causa de mim todos viveram infelizes para sempre.

Até eu ir embora.

Então minha mãe pôde viver. Encontrou novo rei. Ele não fugiu porque não tinha mais dragão pra tomar conta, só o príncipe e a princesa, perfeitos. Que puderam, enfim, ser filhos por inteiro e não pela metade, à sombra da irmã que precisava de atenção redobrada. Atenção que eu nunca quis.

Mas eu que me senti livre ao ir. Pra sempre ingrata. Pra sempre um erro.

Por tudo isso não tive conselho de pai. E nem quero. Se puder, eu darei a ele um conselho: só tenha dois filhos. E não comece por mim.

11

A gente abre os olhos e sorri e diz que tá tudo bem ser assim mesmo. Tudo que sempre senti por ser o avesso do esperado se desapega de mim. E a gente voa porque sabe que fomos, os três, feitos um pro outro.

12

Nós três na cama. Eu no meio; eles, cada um de um lado. Apesar de não poder me levantar, naquele dia eu não estava triste ou com raiva. Quando mamãe gritava: “Não encosta o pé no chão gelado!” ou “Volta pra cama” sem eu mal ter saído, eu não esticava a perninha devagar até a ponta do dedo sentir a superfície fria, numa rebeldia infantil, como geralmente fazia. Nesse dia, eu obedeci. Porque eles estavam ali.

Tão pequenos, mas tão gigantes.

Lembro de passar os dedos entre os cabelos da minha irmã enquanto ela contava as flores desenhadas na parede. Ela ia até o número 4 e voltava ao 1, num loop infinito, porque só tinha aprendido a contar até sua idade. Não percebia que eu mexia nos seus cabelos, estava focada em não perder uma florzinha sequer. Apontava o dedinho e dizia: um, dois, três, quatro, um, dois, três, quatro, um, três, quatro, dois, quatro, um, três…

Meu irmão lia seu livro novo. Tinha acabado de aprender a ler e estava empolgado, fascinado com a nova função que tinha adquirido. Agora ele lia, mais um item pra sua lista de coisas que eles sabia fazer, numa eterna competição com ele mesmo. Um dia, mamãe o levou numa livraria e deixou que escolhesse um livro. Só um, porque não tínhamos muito dinheiro. Ele me contou, quando chegou em casa, que andou entre os livros, olhando, olhando, olhando (“sem tocar, mamãe não deixou”). Observou todas as capas, lendo os títulos, juntando as letras devagar e formando as palavras na cabeça (“às vezes eu tinha que falar alto”, me disse). Mas não foram as letrinhas que chamaram sua atenção. Foi uma imagem. De um lagarto. Com óculos. Ele era vermelho e tinha olhos curiosos, mesmo por trás das lentes. Foi o que falou. Criança inventa cada coisa…

Levou pra casa o livro do lagarto de olhos curiosos e leu sem parar, todos os dias. Nesse dia, lia pra mim, já quase sem precisar de fato olhar as palavras. Ele falava, empolgado, quase gritando, todas as ações do lagartinho. Enquanto minha irmã contava as flores. E as nomeava. “Aquela ali vai se chamar Lucie.”, ela disse. “Porque é a mais fininha.” Meu irmão respondeu que flores não podiam ter nome de gente e minha irmã brigou que se bicho podia, flor também podia. E começou-se uma discussão interminável. Um caos.

Ainda assim, até hoje é um dos meus dias favoritos da vida inteira.

Textos escritos para os dias 08 a 12 do ETEJ, do Projeto Escrita Criativa. PS. Confesso que no 11 dei uma roubadinha em relação ao tema. hehe

Imagem desenhada pela Fernanda Piersanti para o livro Delírios ululantes, de Livia Brazil.

Antes que o café esfrie

11 da manhã, tinha acabado de acordar. Me espreguicei enquanto caminhava até a cozinha, esbarrando em móveis que eu sabia muito bem onde ficavam. A sonolência, porém, sempre me dava roxos pelo corpo. Enchi a panela de água até quase a borda, aquele limite pro transbordar. Acendi a boca da frente do fogão, o fogo alto, já que nunca tive muita paciência. Depositei a panela ali. Enquanto fervia, peguei o que precisava: pote de café, coador, filtro, duas canecas. Enquanto fervia, também pensei na noite anterior. Não pude deixar de sorrir. Sorriso bobo, besta, dos que a gente pensa ser velha demais pra dar. “Sou adulta, não mais uma adolescente” é o que geralmente vem à cabeça. Não dessa vez. Dessa vez me fiz entregue. Me quis entregue. “Tem jeito”, pensei. “agora vai dar.”

Ouvi a água borbulhando, corri pra desligar. Filtro no coador, pote de café. As canecas uma do lado da outra. Meu café, fraco. O dele, forte, daqueles que a gente bebe e precisa fechar os olhos. Do jeito que ele gosta. Peguei a minha caneca, a dela continuou em cima da pia. Sentei em um banco, enxergando formas na fumaça que saía do café. Esperei.

E então vi, preso na geladeira com o imã daquela viagem que a gente fez, a primeira: “Ontem foi ótimo, mas realmente não dá mais. Desculpa.”

Texto escrito no sprint de escrita durante a live do Projeto Escrita Literária.

Foto de Zach Lezniewicz, via Unsplashed.

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